ENTREVISTADO: JOSÉ ARANTES
DE CARVALHO - “ZÉZINHO DA FARMÁCIA DA VILA REZENDE”
Há duzentos anos não havia escolas de medicina e nem de
farmácia no Brasil. Quando alguém precisava de tratamento,
procurava os boticários ou os hospitais dos jesuítas, que
mantinham boticas e produziam medicamentos com produtos que vinham de
Portugal e fórmulas aprendidas com os pajés, feitas a partir
de plantas medicinais. As primeiras escolas de medicina e farmácia
foram fundadas com a vinda de D. João VI e a família real,
em 1808. Os médicos a principio aprendiam com os farmacêuticos
a arte de formular e manipular cientificamente. Todas as receitas de fórmulas
manipuladas traziam a sigla FSA, que significa “Faça-se Segundo
a Arte”. Nas cidades tradicionais brasileiras, a farmácia era um
ponto de encontro, o lugar de conversa onde se reuniam os "homens
bons da terra", as pessoas representativas da administração
municipal, o padre, o juiz, funcionários públicos. A farmácia
foi, sem dúvida, o embrião de clubes, de sociedades literárias,
de partidos políticos etc. Alguns participavam visando melhorar
seu status social, estando e sendo sempre visto na roda de conversa dos
"importantes" da terra. Com o aparecimento do cinema, e outras
formas de diversão esses encontros foram rareando.
Em Piracicaba uma das pessoas mais populares é o Zezinho da Farmácia.
Hoje com diversas unidades espalhadas pela cidade, Zezinho com seu carisma
pessoal conquistou com sua equipe de farmacêuticos, um grau elevado
de confiabilidade da população. O exercício da ética
profissional o faz respeitado entre seus pares e junto à classe
médica.
Zezinho você nasceu em Piracicaba?
Não. Eu sou de Monte Aprazível, na época a comarca
era Mirassol. Meus documentos todos são de Mirassol. Sou filho
de Antonio Lopes de Carvalho e Nair Arantes de Carvalho. Meu pai era lavrador,
tenho um irmão e quatro irmãs. Nasci no dia 5 de abril de
1930. Fiz o curso primário em Monte Aprazível, depois meu
pai comprou um sítio em Tupã para onde nos mudamos. Lá
estudei no Instituto de Ciências e Letras Guarani, cujo diretor
era o Dr. Sebastião Lins, um advogado.
O seu primeiro emprego foi onde?
Fui trabalhar em uma farmácia, tinha doze anos de idade, usava
calça curta ainda. Iniciei como varredor da farmácia, lavador
de vidros, naquela época lavava-se muitos vidros para fazer manipulações,
lavava-se cálices, grals, gral (terrina, pequeno vaso) de vidro,
gral de porcelana com pistilo (espécie de pequeno pilão),
eram utilizados para fazer pílulas, pomadas. Havia um jacaré
de ferro, com diversas ranhuras em medidas diferentes, com uma dobradiça
junto a sua cabeça, usando a sua cauda como alavanca, nós
amassávamos rolhas de cortiça para caber no vidro. Isso
porque na época havia diversos tipos de vidros e de rolhas e nem
sempre o tamanho da rolha era idêntico á boca do vidro á
ser tampado. No início pede-se dizer que comecei como servente
dos manipuladores.
Qual era o nome dessa primeira farmácia onde você
trabalhou em Tupã?
Era a Farmácia São Jorge, o proprietário era Juvenal
Arantes Dias, apesar de ser Arantes, não era meu parente!
Com isso você passou a ir aprendendo o ofício?
Fui aprendendo, ajudando os farmacêuticos a fazerem os medicamentos,
observando como eles trabalhavam. Após dois anos, um dos farmacêuticos,
chamado João Machado Lopes, conhecido como Jango, disse-me: “-Zé
você tem condições de fazer esta fórmula?”.
Respondi “-Tenho!”. Fiz como ele costumava fazer, ele gostou, eu então
fui promovido, passei a ser o titular daquela fórmula. Toda vez
que era receitada eles a passavam para que eu fizesse. Era uma fórmula
que muitos não gostavam de fazer, dava trabalho, tinha que triturar
os sais, triturar a goma, colocar as tinturas, extratos, era bem trabalhosa.
Com isso fui me aprimorando e passando a fazer praticamente todo tipo
de fórmula.
Com que idade você passou a aplicar injeção?
Acredito que tinha quatorze anos.
Como os adultos viam uma criança aplicando injeção?
A cidade era pequena, todos se conheciam. A farmácia era muito
conceituada, e os adultos tinham confiança. Por volta de 1943 a
1944, apareceu a penicilina, com isso a pneumonia, doenças venéreas,
tiveram um tratamento mais eficaz. Na época a penicilina era sódica
administrada de três em três horas. Passei muitas noites sem
dormir, tinha 10 a 12 casas para aplicar injeções. Em determinada
época houve um surto de pneumonia em Tupã, com isso eu passava
a noite toda trabalhando. Ás seis da manhã, outro funcionário
vinha me substituir. Em Tupã começaram a desbravar uma região,
inclusive onde meu pai comprou o sítio, quando passaram a derrubar
a mata, onde havia o Córrego de Iacã, começou a dar
tanta maleita que morria gente na calçada. O hospital estava em
construção, a pessoa que já estava doente, caia na
calçada e lá morria. Não havia remédio para
maleita. Aplicava-se Maleitosan, Maleisin Azul, uma injeção
de quinino com azul de metileno, as nádegas da pessoa ficavam toda
roxa. Alguns reagiam, mas a maioria morria. Hoje cura-se maleita com apenas
cinco comprimidos!
Na época havia médicos em Tupã?
Existiam bastantes médicos, um deles Dr. Valter Montanha Peixoto
da Silva, era um baiano, ele fez um ambiente em seu consultório,
que era hermeticamente fechado, esterilizado, e operava ali apendicite,
cirurgias mais simples, ou de urgências. Ele me chamava para ajudá-lo
nas cirurgias.
Você nunca pensou em ser médico?
Pensar, eu pensei. Querer eu queria. Mas não tinha condições
financeiras. O curso de medicina exige dedicação de tempo
integral e infelizmente meu pai não tinha condições
para me manter.
Quantos anos você permaneceu na atividade farmacêutica
em Tupã?
De 1942 a 1946, de lá mudamos para Charqueada. Um primo da minha
mãe, Seu Cristiano, era farmacêutico, proprietário
da Farmácia Luz em Charqueada, ele que nos trouxe. Trabalhei três
anos em Charqueada. Após esse período eu vim trabalhar com
o Dr. Abério Sampaio, era dentista, professor da faculdade, químico
e físico. Era uma pessoa muito importante. Isso foi em 1950.
Qual era a sua atividade?
Era a de manipular fórmulas. A farmácia do Dr. Abério
ficava na Avenida Rui Barbosa, na Vila Rezende, chamava-se Farmácia
Nossa Senhora Aparecida. Em 1954 ele mudou-se para São Paulo e
vendeu a farmácia para mim. Arrumei um sócio e continuamos
a trabalhar. Até 1959 continuamos com a Farmácia Nossa Senhora
Aparecida.
Foi quando você montou outra farmácia?
Montei a Droga Vila.
Você é uma pessoa conhecida e estimada por muitos habitantes
de Piracicaba, particularmente os da Vila Rezende. Construímos
um nome, procuramos sempre tratar as pessoas com bastante amizade, não
temos tratamento diferenciado, sempre procurando atender com cortesia,
lealdade, honestidade.
Você conheceu a família Papini?
O local onde é a farmácia da Avenida Rui Barbosa, eu comprei
do Papini. Quando ele fechou o restaurante eu adquiri os fundos do restaurante
e instalei a Droga Vila lá. O restaurante do Papini era ao lado,
onde havia o restaurante, o jogo de bocha. Conheci a esposa dele, a Dona
Gigeta.
Você conheceu personalidades ilustres da Vila Rezende?
Conheci o Comendador Mário Dedini. Comendador Humberto D`Abronzo
vinha ás vezes até a farmácia.
Monsenhor Jorge é seu cliente?
É meu cliente e meu amigo! Ambos somos corintianos!
Você tem lembranças do bonde que passava na Avenida
Barbosa?
Lembro-me sim. Havia o trem da Sorocabana passava no fundo da farmácia.
O trem do Engenho Central cuja linha ficava abaixo, mais próxima
do Rio Piracicaba. A estação do trem Sorocabana mais próxima
era a Barão de Rezende.
Você chegou a conhecer os franceses que administravam o Engenho
Central?
Fui fornecedor deles por muitos anos.
Conheceu Mário Áreas Vitier?
Conheci muito, era meu cliente.
Você conheceu a Avenida Manoel Conceição no
tempo em que era um descampado?
Eu ia fazer injeções de bicicleta. Saia ás sete horas
da manhã, levava o álcool para ferver. Era um estojo de
metal com um suporte onde acendia o fogo e esterilizava a seringa de vidro.
Você chegou a fazer ou auxiliar algum parto?
Quando vim para Piracicaba Dona Maria (Mariquinha) Caldari, tia do Dr.
Pedro Caldari, estava para dar a luz. Quem veio fazer o parto foi o Dr.
João José Correa. Ele então orientava: “Zé
aplica pituitina”, ou então “Zé aplica orastina”, que são
medicamentos indicados para estimular a contração uterina,
para facilitar o parto. Ele fazia o parto eu aplicava os medicamentos.
Em Charqueda quando as parteiras tinham um parto complicado pela frente
chamavam o Dr. Correia, meia hora depois ele estava lá, não
tinha chuva ou temo ruim que o detivesse. Eu ia com ele na casa do paciente.
Ele nunca deixou de me atender quando eu o chamei. Na época a maioria
dos partos era feita em casa.
Quais são as doenças que hoje mais atormentam a
humanidade?
A AIDS, o câncer. No momento a H1N1, popularmente conhecida como
gripe suína é uma doença perigosa, principalmente
para quem adquire o vírus sem estar com suas condições
físicas satisfatórias. As pessoas que faleceram já
tinham algum tipo de problema, de deficiência. Os demais que contraíram
o vírus após o tratamento próprio, saram.
Qual é a sua opinião sobre a homeopatia?
Tenho um amigo, médico, que é grande defensor da homeopatia.
Ela produz reações no organismo. É uma medicação
centenária, mas é valida, porque ainda funciona.
O principio ativo dos remédios são derivados das
plantas?
Nem todos. Hoje existem sintéticos. Mas a maioria é das
plantas. A Ipeca (Psychotria Ipecacuanha), por exemplo, é muito
comum no Mato Grosso. Ela tem várias ações: expectorantes,
diarréicas e tem ação para provocar o vomito. O confrei
(Symphytum officinale), utilizado muito pelo Dr. Walter Radamés
Accorsi, a canela (Cinnamomum zeylanicum), servia muito para fazer poções.
Atualmente há uma procura muito grande por farmácias de
manipulação?
O sal é o mesmo que é utilizado no produto ético.
Só que sai bem mais barato. Com isso cresceu muito o número
de farmácias de manipulação.
Qual é a receita para a pessoa ter uma boa saúde?
Em primeiro lugar evitar o uso do tabaco e da bebida. Saber comer, e comer
regularmente.
O que é saber comer?
É não comer aquilo que possa lhe fazer mal, como carnes
muito gordurosas. A digestão a noite é mais difícil.
Comer com moderação. Comer muitas frutas, legumes, verduras.
A carne tem proteína, só que a soja também tem muita
proteína. Tenho amigos que não comem carne de forma alguma,
só que eles repõem as proteínas com outros tipos
de alimentos. Sabendo comer adquire-se mais saúde.
Está havendo uma conscientização da juventude a respeito?
Acho que a nossa juventude está melhorando. Há exceções.
Existe uma corrente de pensamento afirmando que a o ser humano
está doente motivado pela velocidade com que a vida lhe imprime.
É comum que as pessoas acometidas por sintomas típicos de
ansiedade o procure?
Pelo fato de eu ser muito conhecido na cidade eles vem pedir a opinião
da gente. Hoje o stress é muito grande. Aconselho que procurem
um psiquiatra.
No conceito popular ainda persiste para alguns desinformados a
idéia de que psiquiatra é “médico de louco”?
O psiquiatra é um médico que atende ao paciente procurando
conhecer o intimo da mente da pessoa.
Quando a pessoa sofre uma fratura óssea procura um ortopedista,
um problema ocular procura um oftalmologista, o brasileiro é muito
preconceituoso, e quando está com stress, fica sem saber o que
fazer?
Aconselho sempre que procure um médico psiquiatra.
O povo tem condições de ser atendido por médicos
psiquiatras?
Infelizmente não tem. Nem todos possuem um sistema particular de
saúde. O INPS oferece esse tipo de assistência, mas pela
demanda torna-se muito demorado o atendimento.
Você acredita que a paz de espírito adquirida em
uma crença religiosa, filosofia de vida, pode suprir a necessidade
de um atendimento psiquiátrico?
Pode ajudar muito. A pessoa que acredita em Deus tem uma força
muito grande.
Como surgiu o Cesário Mota em Piracicaba?
Teve muito da participação da minha mãe que era espírita.
Abrigava quem?
Pessoas com necessidade de tratamento mental.
O alcoolismo ainda é um dos fatores que provoca doenças
mentais?
Cigarro e alcoolismo continuam sendo fatores de grande relevância.
O alcoolismo é motivado por ser muito barato, e ambos, tabaco e
alcoolismo são socialmente aceitáveis.
Hoje já se inicia uma conscientização, as famílias
pressionam. Os médicos ajudam muito.
O terror do farmacêutico é a letra escrita pelo médico
na receita?
Era! Hoje vem tudo digitado. Dr. Samuel Neves tinha uma caligrafia terrível,
nem ele lia o que ele mesmo escrevia.
Qual é o seu hobby?
Pescar! No ano que vem vamos pescar no Rio Paraguai.
Qual foi o maior peixe que você pescou?
Foi um jaú de uns 40 quilos, no Mato Grosso, Rio Paraguai, eu e
meu amigo que estava junto pescando levamos meia hora para tirar ele da
água.

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