ENTREVISTADO: JOSÉ VOLPATO
José Volpato é um ser humano com características
próprias e marcantes. De estatura média, poucos imaginam
a capacidade desenvolvida por ele em suas décadas de vida. Muito
bem informado, usa até internet como ferramenta de trabalho. É
um dos mais raros exemplos remanescentes da fidelidade profissional muito
comum no passado recente. Conhece seu trabalho em cada detalhe, objetivo,
administra com o rigor necessário um empreendimento que há
mais de um século tem presença marcante no mercado de gás
carbônico e álcool de fino teor. A entrada da fazenda é
um verdadeiro cartão postal, tudo feito com material obtido na
propriedade, impressiona pela ordem das coisas. Parece uma imensa pintura
realizada pela natureza. Enganam-se quem achar que José Volpato
é condescendente com o que considera errado ou fora de lugar. Nessas
horas brota a energia dos obstinados, que trabalham com amor ao que fazem
uma qualidade se não em extinção, muito raras em
nosso país. José Volpato é nascido a 10 de maio de
1935 no bairro rural de Paraisolândia, hoje pertencente ao Município
de Charqueada, sua mãe é Ana Fernandes Volpato de prendas
domésticas e seu pai Emílio Volpato que exercia o ofício
de sapateiro e seleiro. Em 1952 a família mudou-se para a Vila
Nova, uma vilinha pertencente Fazenda Capuava. A usina cedeu uma casa
para morarem em decorrência de José Volpato vir trabalhar
na usina. Rufino da Silva foi seu professor do segundo ao quarto ano primário.
Ao sair de Paraísolândia para onde o senhor se dirigiu?
Fui trabalhar no Laticínios Piracicaba Ltda., o gerente era Natalino
Cabrini pai do famoso jornalista Roberto Cabrini, trabalhei na parte administrativa,
permaneci por um ano e meio mais ou menos. Nessa época eu ficava
em uma pensão, situava-se praticamente em frente ao Latícinios
Piracicaba, na Rua XV de Novembro. A proprietária era a Dona Tereza
A que horas o senhor iniciava o seu trabalho no Laticínios?
Sempre tive o senso de que o horário é prioritário.
Se eu tinha que entrar às oito horas da manhã entrava antes,
por volta de sete e meia. Nunca cheguei um minuto atrasado no serviço,
isso em toda a minha vida. Normalmente eu saía do trabalho no Latícínios
Piracicaba às 17h. Sempre gostei de ler, ia para casa e procurava
estudar coisas novas. Às vezes ia até o centro, quadrar
o jardim.
Capuava era a denominação de uma fazenda?
Era uma fazenda de café, ao que consta tinha também lavoura
de cana, tendo produzido açúcar inclusive. Um dos sócios
foi para Barra Bonita, permaneceu na Fazenda Capuava a produção
de aguardente e gás carbônico.
Como o senhor veio para a Fazenda Capuava?
A proprietária era a Sra. Sophia Rehder Matthiessen, falei com
o gerente, o Sr. Leif Rene F. Schumacher, descendente de dinamarquês,
me entrevistaram, acharam que eu tinha competência para trabalhar
com eles, fui registrado em 2 de maio de 1952. Entrei como auxiliar de
escritório. A Capuava fabricava gás carbônico extraído
da fermentação da cana de açúcar, já
tinha uma clientela razoável, fornecíamos até para
outros estados, como Paraná, Mato Grosso.
Como era produzido o gás carbônico?
Na época era obtido da fermentação da cana de açúcar.
As dornas fermentavam o caldo da cana de açúcar, depreendendo
o gás carbônico que ia para a purificação através
das colunas.
Para que era utilizado o gás carbônico?
Na época era muito utilizado para a gaseificação
de refrigerantes, atualmente tem mais aplicações, como no
uso de soldas Mig. O gás é transportado em cilindros de
aço. É feito um teste hidrostático nesse cilindro
a cada cinco anos, atualmente o Brasil fabrica esse tipo de cilindro,
mas por muitos anos tivemos cilindros importados da Alemanha.
Após seu ingresso na empresa como auxiliar de escritório
como foi o seu desenvolvimento profissional?
Passei por várias fases, na medida em que tinha tempo gostava de
aprender outras coisas, sempre fui curioso. Trabalhei um pouco com o departamento
pessoal, um pouco na parte de fabricação, na distilaria
eu frequentava o laboratório.
A Capuava Indústria e Comércio Limitada foi fundada
quando?
Quando eu entrei aqui chamava-se T. Svendsen Matthiessen, em 1950 foi
transformada em Usina Capuava S/A, atualmente temos aproximadamente 700
hectares de área de plantio, e em torno de 6.000 metros quadrados
de área fabril. Existe uma outra área de plantio, prpriedade
do principal acionista, qua as vezes fornece cana de açucar para
a nossa unidade. Segundo consta Tage Flohr Svendsen, genro de Dona Sophia,
passou a produzir alcool extra fino que era comercializado a granel. Ele
produziu também açucar cristal. O senhor Tage era uma pessoa
muito qualificada tecnicamente. Aqui foi a primera fábrica de fermento,
o famoso fermento Fleischmann nasceu aqui, a formulação
foi trazida da Alemanha ou Estados Unidos, isso não sei afirmar,
mas a produção passou a ser aqui. Em função
da cana de açucar.
O que é alcool extra fino?
É um alcool próprio para bebidas, bebidas finas, é
utilizado inclusive na fabricação de perfumes. Temos alcool
com teor alcoolico 96 G/L. (96% do volume total é de álcool
e 4% é de água. G/L é uma homenagem ao cientista
Gay-Lussac). A Capuava atualmente vende cachaça a granel, temos
clientes que adquirem nosso produto há muitos anos. Diversos nomes
famosos no mercado nacional são nossos clientes.
Qual é a carga de impostos sobre a cachaça?
A carga tributária sobre a cachaça atinge 81%, o que onera
muito o produto.
O senhor é casado?
Sou casado com Jandira Aparecida Marchesin Volpato, nos conhecemos em
festas populares de igreja.
O senhor é católico?
Sou, temos a Paróquia de Santa Rosa de Lima. Freqüentamos
muito a Capela do Bairro Vila Nova. Uma vez por mês o Padre Vitório
da Paróquia de Santa Rosa vem dar atendimento á nós.
Aos domingos temos as celebrações que são feitas
com as ministras.
Como o senhor vê a aplicação do álcool
como combustível?
Considero importante tanto pra o setor industrial como para o consumidor.
Os encargos são pesadíssimos, encarecem o produto.
Houve uma mudança de postura do funcionário da época
em que o senhor entrou na empresa?
Houve uma grande mudança. Acho que o pessoal tinha mais amor, responsabilidade
pelo serviço. Executava o trabalho com o prestígio de fazer
a coisa bem feita. Hoje há diversos fatores influenciando negativamente
na postura do funcionário.
O senhor chegou a presenciar alguma vez o campeonato de corte
de cana?
Conheci cortador de cana muito bom. Aqui mesmo o Jorjão era um
deles, naquele tempo cortava-se a cana e amarrava-se o feixe. Hoje há
horário determinado para tudo. Naquele tempo se tivesse a luz da
lua às seis horas da manhã o trabalhador já tinha
varado um eito. Trabalhava-se por empreitada, o trabalhador dava o máximo
de si. Enquanto enxergava ele estava trabalhando.
A empresa chegou a ter funcionários menores de idade?
Há muito tempo a Capuava tinha famílias que trabalhavam
por empreitada. A própria família conduzia a lavoura, a
família cuidava de um determinado número de quartéis
de cana. Chegamos a ter umas 10 famílias trabalhando nesse sistema,
a maior parte formada por descendentes de italianos. As crianças
iam para a escola, quando voltavam iam ajudar.
A proibição do trabalho feito pelo menor de idade
é um incentivo ao ócio?
Exatamente, já vimos isso acontecer. Por serem proibidos de trabalhar
em função da idade muitos adolescentes ficavam jogado futebol,
ou mesmo sem ter o que fazer. Em uma safra contratamos um rapaz que já
tinha a idade permitida para trabalhar. Ele trabalhou não mais
do que 15 dias, possivelmente viu os colegas que permaneciam jogando bola
e juntou-se a eles.
Houve alguns períodos de racionamento de alimentos básicos
como óleo comestível, açúcar, o senhor passou
por algum tipo de racionamento?
Teve um período em que houve racionamento de sal. Isso quando morávamos
em Paraisolândia. Não tinha sal na época, eu era criança
ainda e me lembro desse fato.
O senhor tem filhos?
Tenho cinco filhos, todos casados, aos domingos nos reunimos.
Quais são as maiores dificuldades que o senhor encontra
hoje para administrar uma empresa?
Alguns fatores surgem como obstáculos, a mão de obra, os
pesadíssimos tributos, hoje estava vendo na internet as modificações
diminuindo algumas tributações, mas lamentavelmente não
fomos contemplados com tributos menores. Várias empresas tiveram
facilitações no recolhimento de INSS e outros tributos,
mas nós infelizmente não fomos atingidos nisso não.
Com o afluxo de muitos visitantes de outros países em função
da copa de futebol, é uma oportunidade para divulgar um produto
de alta qualidade como é produzido pela Capuava?
Recebemos várias consultas de interessados em exportar nosso produto.
Grandes engarrafadores de cachaça conseguem manter a mesma
qualidade sempre?
Esses grandes engarrafadores recebem a cachaça de diversos produtores,
conseqüentemente eles fazem um blend para padronizar a cachaça
a 39, 40 GL. Após essa padronização ela é
engarrafada.
Qual é o teor alcoólico da cachaça comercializada
no mercado?
A nossa deve estar com 39 G/L. Normalmente é de 39 a 40 G/L. Até
54 G/L é cachaça, acima disso é álcool. A
cachaça é um álcool mais fraco. Utilizando a coluna
de destilação apropriada temos aqui álcool com 95
G/L.
Se adicionar água destilada a um álcool 95 G/L é
possível obter cachaça?
É possível, só que sem a qualidade da cachaça
destilada de forma a ser obtida naturalmente.
A Capuava fornecia para empresas tradicionais de Piracicaba?
Fornecíamos para a Tatuzinho, Cavalinho, Del Nero, Caninha Ouro
Verde de Vicente Orlando, Miori.
O senhor conheceu a Fábrica de Bebidas Andrade?
Fornecíamos gás carbônico para os refrigerantes, entre
eles a tradicional Cotubaina. Um dia eu estava lá, quando aconteceu
um fato pitoresco. Apareceu um garoto com a caixa de engraxar sapatos
na costa. O encarregado era o senhor Silvio. O menino pediu um refrigerante.
Ele trouxe um quartinho de litro e deu para o menino. O engraxate reclamou
dizendo: “Mas só isso?” Indignado, o Silvio trouxe uma garrafa
grande e disse-lhe: “Quero ver você beber tudo!”. O engraxate colocou
a caixa no chão sentou-se e ingeriu o refrigerante, fazendo intervalos,
até esgotar a garrafa. Foi um fato que guardei em minha memória.
Naquele tempo era muito comum crianças lavarem os vasilhames, entravam
em um tanque de água e retiravam os rótulos.
A mão de obra do menor era muito utilizada.
Atualmente como está a qualidade da cana de açúcar?
Estão sendo cultivadas canas que são propicias para a colheita
mecanizada. São variedades que não são deitadas pelo
vento e mantém um padrão de altura para facilitar o trabalho.
O senhor lembra-se quando no fundo da caldeira formava-se um resíduo
muito duro?
As cinzas e a garapa petrificavam, semanalmente tinha que limpar a caldeira,
para retirar aquilo não era fácil, em pedaços eram
utilizados para decorar fachadas de casas.
Assim como se aproveita praticamente tudo da vaca, a cana torna-se
totalmente aproveitável?
De certa forma sim, o bagaço da cana alimenta a caldeira, da garapa
se extrai o álcool ou a cachaça, a vinhaça ou restilo
é aproveitada na adubação. Quando eu era criança
e morava em Paraisolandia montou-se a Usina São Francisco, tínhamos
um ribeirão que passava no sítio, o restilo despejado no
ribeirão acabou com os peixes, ficava uma “plasta” em cima do ribeirão,
quase que dava para passar andando em cima da água.
O senhor pulveriza a cana com avião?
Não. Algumas usinas usam esse processo principalmente para antecipar
a safra. Houve um ano em que ao que consta o próprio governo solicitou
a antecipação da safra para atender a demanda do álcool.
O senhor acredita que muitas leis de proteção à
natureza foram feitas apenas sobre mesas de trabalho, sem uma pesquisa
mais profunda?
Nós enfrentamos um problema sério com o crescimento desordenado
de capivaras. Tivemos que investir boa soma de recursos para tentar delimitar
com cerca a área de plantio, elas devoram a metade de um talião
de cana. O Rio Guamium passa dentro da propriedade e forma uma represa
grande.
O senhor se sente uma pessoa realizada em seu trabalho?
Nada melhor do que fazer o que gosta com dedicação. Embora
cansado, ainda aprecio o que eu faço.
O senhor não transmite a sensação de alguém
que irá colocar um par de chinelos e ficar assistindo televisão
o resto da vida.
Espero que não! Chego aqui 6h45 vou embora às 19h, 20h,
e às vezes levo serviço para casa.
A doença da moda é a depressão, no seu conceito
pode ser falta de serviço?
Eu acho que sim! Trabalhando você não coloca minhoca na cabeça.

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