ENTREVISTADA: Rita de Cássia
Domingues
A liberdade de expressão é a conquista mais
preciosa do ser humano. Ela se manifesta de inúmeras formas, uma
delas é a música. No amor e na guerra a música sempre
esteve presente. Ela expressa de forma sublime o sentimento que se apossa
do ser humano. O Brasil pela sua característica própria
e única, multirracial e multicultural, é a fonte, aonde
muitos artistas de outros países vem saciar a sua sede de musicalidade
inovadora.
Talentosos artistas realizam obras de grande importância, passam
pelo semi-anonimato, ou são conhecidos, mas não são
reconhecidos. Alguns ainda têm o privilégio de serem devidamente
valorizados após falecerem. Outros nem tanto. Piracicaba tem em
seu seio grandes valores artísticos, verdadeiros operários
da arte. Um desses grandes talentos é o Professor Erotides de Campos,
natural de Cabreúva, onde nasceu em 15 de outubro de 1896. Compositor
de marchinhas, sambas, choros, pianista e tocador de vários instrumentos,
foi professor de física e química e passou parte da sua
vida na cidade de Piracicaba. Compositores como Gounoud, Schubert, Puccinni,
foram autores de obras com o mesmo nome: Ave-Maria. O nosso Erotides Campos,
também é autor de uma obra que leva o nome Ave-Maria, e
que também ultrapassou as nossas fronteiras e é executada
até hoje pelo mundo afora. A casa em que viveu boa parte de sua
vida, e onde faleceu, no dia 20 de março de 1945 está praticamente
intacta. Mantém quase todas as suas características originais.
É possível perceber a presença de Erotides, detalhista,
perfeccionista. O teto em madeira envernizada mantém a originalidade,
assim como a escada que leva ao andar superior, ainda de madeira. A cozinha
onde degustava suas tão apreciadas laranjas lima. A impressão
que se tem é de que Erotides de Campos foi até ali e volta
já. Homem humilde, recatado, mulato, Erotides de Campos recebeu
a homenagem de Piracicaba num enterro em que se revelou a comoção
popular. Para falar com mais propriedade de Erotides de Campos ninguém
melhor do que a sua filha.
Quais os nomes dos pais de Erotides de Campos?
Benedito da Silveira e Francisca da Silveira Neves. Aos 12 anos de idade
já fazia parte da banda de Cabreúva, logo pôde ouvir
suas primeiras composições serem tocadas, os dobrados “Porto
Artur” e “Saudades dos meus 12 anos” Quando ele tinha 14 anos de idade
sua família transferiu-se para Piracicaba. Erotides de Campos integrou
a famosa orquestra piracicabana que se apresentava nos cines Iris e Politeama.
A orquestra, entre outros, contava com a participação de
Osório de Souza, Melita , Carlos Brasiliense, João Viziolli,
Renato Guerrini. Participou, também, da banda União Operária.
Aos 15 anos iniciou seus estudos de piano sem o auxilio de professores,
alguns pesquisadores afirmam que ele estudava piano com Francisca Júlia
da Silva, poetisa de renome e pianista, ao mesmo tempo em que cursava
escola municipal de Cabreúva. Em setembro de 1917 escreveu a valsa
“Mariinha” com versos de Mello Ayres. Já nessa época era
exímio flautista, e conhecedor de quase todos os instrumentos componentes
de uma banda. Executava com perfeição clarineta, pistão,
trombone, baixo, piano, violão e rabecão. Integrou a “Banda
Musical Luiz Dutra”. Foi flautista de destaque na Orquestra Piracicabana
regida pelos maestros Benedito Dutra Teixeira e Edgard Van den Brand.
Do gênero popular foram compostas por ele valsas, canções,
sambas, maxixes, tangos, chorinhos, marchinhas em estilo carnavalesco,
fox-trot, rag-time, charleston, marchas patrióticas e dobrados,
na maioria com versos. Musica sacra: “Salve-Maria”, “Hino á Santa
Rita de Cássia” e uma marcha fúnebre. Hinos escolares: Hino
à criança, Hino ao Dia das Mães, 8 hinos escolares
para Grupos Escolares Estaduais, “Hino à despedida”. Das marchas
patrióticas que escreveu destacam-se: “Patriarca” à memória
de José Bonifácio, e “Condores do Brasil” em homenagem ao
aviador João Ribeiro de Barros, herói do “raid” realizado
no avião “Jaú”. Vicentino dedicado, sua fé cristã
originou os títulos das músicas: “Ave Maria”, Melodia da
Fé”, “Êxtase”, “Preces de Natal” , “Murmúrios do Piracicaba”,
“Alvorada de Lírios”, “Plenilúnio” e “Murmúrios Sonoros”.
Suas músicas foram gravadas por Francisco Alves em disco da Odeon
e Parlophon, Oscar Gonçalves e Yolanda Ozório em disco Bruswick,
Artur Patti, solista de harmônica em disco Ouvidor. De todas as
suas músicas, alcançaram grande sucesso “Ave-Maria” e “Vera”.
As músicas de Erotides tornaram-se populares não só
no Brasil como também na França, Itália, Portugal,
Espanha, Polônia e outros países. “Ave-Maria” foi gravada
por Pedro Celestino, sendo a primeira edição de mil exemplares,
em disco Odeon, esgotada em menos de um mês. A valsa “Vera” com
versos traduzidos para o italiano obteve medalha de ouro. O tango “Goal”
classificado em segundo lugar, rendeu um prêmio em dinheiro no concurso
musical promovido em 1919 pela Casa Editora Musical Brasileira. O concurso
foi realizado no Teatro Boa Vista, em São Paulo, onde concorreram
180 compositores de todo Brasil. A marchinha “Um Róseo Carnaval”
obteve o segundo lugar de um concurso de musica carnavalesca. Nos últimos
anos Erotides dedicava-se a composição de música
refinada, entre elas “Murmúrio do Piracicaba” e “Uma Barquinha
Azul”. “Alvorada de Lírios” teve os versos escritos por Benedito
de Almeida Júnior.
Onde seu pai formou-se?
Seus estudos primários foram feitos em São Paulo, no Liceu
Coração de Jesus. Estudou na Escola Normal, atual Sud Mennucci,
formou-se em 1918 e foi lecionar na escola da estação de
Monjolinho, em São Carlos. Conseguiu a segunda nomeação,
retornando a Piracicaba onde lecionou no Grupo Escolar de Tanquinho e,
depois, no de Dois Córregos. Em 1921, casou-se com a minha mãe
Maria Benedita Germano.
De 1923 a 1932 lecionou em Pirassununga, voltou a Piracicaba em 1932,
nomeado como professor de Química na Escola Normal.
Após o falecimento do seu pai sua mãe trabalhava
com o que?
Ela fazia balas de coco, bolos de casamento, era doceira.
Os direitos autorais das músicas compostas por Erotides
de Campos, entre elas a celebre Ave-Maria, não proporcionaram um
bom rendimento financeiro?
Entre muitos intérpretes famosos, o Roberto Carlos é um
dos que canta Ave-Maria, musica composta pelo meu pai. Minha mãe
recebia o equivalente o que recebo ainda hoje, 10 a 15 reais a cada cinco
ou seis meses. Falam que não toca, é musica muito antiga!
Ele possui mais 350 músicas compostas, entre as publicadas e inéditas.
Tanto musica popular, como música clássica e música
sacra.
Erotides usou um pseudônimo ao compor Ave-Maria?
Usou Jonas das Neves, parte do seu nome completo, Erotides Jonas Neves
de Campos.
Como surgiu a música Ave Maria?
Minha mãe contava que ele ficava muito aqui no quintal de casa,
isso por volta de cinco ou seis horas da tarde, ele achava o cair do sol
muito bonito. Um dia ele resolveu compor a musica Ave-Maria. Ele subiu
para o seu escritório que ficava no andar superior da casa, lá
ele permaneceu por horas. Minha mãe disse que quando subiu, entrou
no escritório dele havia muito papel jogado no lixo. Eram esboços
da música que ele estava compondo e não achando ainda satisfatório,
jogava-os ao lixo.
Ela falava muito do seu pai Erotides?
Quando ela se referia a ele chorava muito, ela dizia ter sido muito feliz
com o meu pai.
Como era o cotidiano de Erotides de Campos?
Ele levantava, banhava-se, colocava o terno, e ia lecionar no Sud Menucci.
Voltava, almoçava, descansava e trabalhava corrigindo trabalhos,
provas, preparando aulas. Ele permanecia sempre muito com a minha mãe
em casa. Ás vezes os dois saiam davam uma volta no jardim. Os irmãos
dele vinham visitá-lo.
Que destino teve os objetos de uso pessoal de Erotides de Campos?
Minha mãe doou a flauta, cadernos, para o Museu Histórico
e Pedagógico Prudente de Moraes. O piano minha mãe doou
para o Lar Escola Nossa Mãe.
Ele faleceu nessa casa?
Foi um infarto fulminante, onde hoje é o meu quarto. Ele estava
fazendo uma capa do Cancioneiro. No dia anterior ele sentiu um grande
mal estar, a ponto de não ir lecionar. Uma das suas frutas prediletas
era laranja lima, minha mãe providenciou algumas laranjas, e aqui
na cozinha de casa ele chupou umas frutas. As duas horas da manhã
ele sentiu-se mal, dor no peito, disse á minha mãe: “-Tita
estou me sentindo mal”. Ela disse-lhe: “-Chupe uma laranja!”. Assim ele
fez, e ele com a minha mãe foram caminhar um pouco, eram duas horas
da manhã, isso na Rua José Pinto de Almeida, foram devagar
até perto da Rua XV de Novembro. Voltaram para casa e ele disse
que não conseguia dormir, iria terminar de fazer a capa do Cancioneiro.
Ele subiu, estava escrevendo, sua letra era impecável, ela percebeu
que ele tinha tremido a mão, ela então perguntou: “Que foi
Erotides?”. Ele caiu sem falar nada. Assim ele faleceu.
A mãe da senhora faleceu com quantos anos?
Ela faleceu com 97 anos de idade, foi em 1993.
Como é ser filha de Erotides de Campos?
Tenho muito orgulho do meu pai!
Qual era a reação da sua mãe ao ouvir as
musicas compostas pelo seu pai?
Ela chorava muito. O Manoel Lopes Alarcom era um grande amigo da nossa
família, ele vinha visitá-la, quando falava sobre o meu
pai ela punha-se a chorar. Ela dizia que meu pai ajudava muito as pessoas,
não falava mal de ninguém.
Qual o prato imbatível que a Dona Tita, sua mãe,
fazia?
O macarrão! Eu faço da mesma forma que ela fazia, mas não
fica igual, até meu marido diz: “-Não é igual ao
da sua mãe não!”.
Ave Maria De Erotides De Campos
Cai à tarde tristonha e serena
Em macio e suave langor
Despertando no meu coração
A saudade do primeiro amor
Lungio se esvai lá no espaço
Nesta hora de lenta agonia
Quando o sino saudoso murmura
Badalada da Ave Maria
Sinos que cantam com mágoa dorida
Recordando em toda a aurora da vida
Cabe ao coração paz e harmonia
Na prece da Ave Maria
No alto do campanário
Uma cruz simboliza o passado
E o amor que já morreu
Deixando um coração amargurado

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