ENTREVISTADO: JOSÉ LUIZ
RIBEIRO
Vereador mais votado das últimas eleições
municipais, líder metalúrgico, José Luiz Ribeiro
têm o que se denomina carisma. Com sua simplicidade conquista uma
só pessoa ou uma platéia. Sua fala simples é compreensível
ao homem do povo. Tem a sabedoria natural do caboclo, que teve a natureza
como professora. Da roça veio para a cidade em busca de melhores
condições. Encontrou amparo em movimentos religiosos, onde
deu seus primeiros passos na liderança de grupos de jovens católicos.
Revelou seus atributos de forma intuitiva e cresce a passos largos ocupando
um espaço cada vez mais representativo. Nascido em 10 de novembro
de 1960, na Fazenda Barreiro Rico, município de Anhembi, distante
70 quilômetros de Piracicaba. Filho de José Ribeiro e Maria
de Lourdes Ribeiro, ambos falecidos. Somos seis irmãos. Meu pai
trabalhou como cozinheiro na fazenda, em Piracicaba trabalhou como pedreiro
e depois foi metalúrgico na empresa Fazanaro.
Seu pai era bom cozinheiro?
Fazia uma macarronada, um nhoque, era um bom cozinheiro sem nunca ter
tido um curso a respeito.
Essa capacidade de bom cozinheiro é uma característica hereditária?
Em parte! Em casa quem cozinha é a minha esposa, Andressa Mascaro.
Sou pai de quatro filhos, dois do primeiro casamento, a Amanda e o Caio,
e duas filhas do segundo casamento, que estão com quarenta dias
de vida hoje, a Maria Valentina e a Maria Catarina.
Na Fazenda Barreiro Rico, com quantos anos você passou a
trabalhar?
No sítio com sete anos de idade já passa a ter as tarefas
de cuidar de animais, plantar grama para fazer o pasto para os animais,
trabalhar em pomar, em horta. Dos sete aos quatorze anos de idade trabalhei
nessa área, agrícola e pecuária. Na época
não havia plantada a cana de açúcar, hoje a fazenda
está toda tomada pela cana, esse foi um dos motivos que provocou
a vinda da nossa família á Piracicaba. Com seis irmãos,
enquanto a fazenda permitia o plantio de arroz, feijão, milho,
a criação de galinhas, porcos, possibilitava a nossa sobrevivência.
Depois que acabou com os quintais dos trabalhadores da fazenda, não
permitindo mais o plantio para consumo próprio a situação
ficou difícil.
Quem são os proprietários da Fazenda Barreiro Rico?
É da família Magalhães, são proprietários
de mais de 10.000 alqueires de terra, hoje divididas em cinco fazendas,
eles possuem uma das maiores reservas ecológicas do Estado de São
Paulo.
Qual escola você freqüentava na época da fazenda?
Era a Escola Mista da Fazenda Barreiro Rico. Dona Brasilina foi a minha
primeira professora. Dona Maria Rita também nos deu aulas. O ginásio
foi feito em Anhembi. Nós íamos até a escola na carroceria
de um caminhão, por cerca de 20 e poucos quilômetros. Quando
chovia era colocada uma lona, um toldo. O pior eram as noites de frio.
Hoje o Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece normas que
não existiam na época?
Nós defendemos o Estatuto da Criança e do Adolescente. Não
é fácil uma criança trabalhar na roça sem
nenhuma condição de segurança, vi colegas sofrerem
acidentes, até morte de tétano aconteceu com criança
na época. Acho que devemos defender um pouco mais a Lei do Aprendiz.
O jovem sai com formação técnica do SENAI com 16
anos de idade e não pode trabalhar, isso é um absurdo! O
trabalho não mata ninguém. Os critérios para o trabalho
da criança têm que obedecer a seu devido momento. A Lei do
Aprendiz eu defendo, pelo fato dela ser muito bem elaborada, estabelecendo
os limites, normas e obrigações. Acredito que o trabalho
além de favorecer o aprendizado enobrece a pessoa. O setor metal
mecânico hoje é todo informatizado, o jovem de 16 anos é
apto para trabalhar nessa área, ele está bem entrosado com
a informática. Nós não iremos defender que um jovem
vá trabalhar em um serviço insalubre, pesado. Quando ele
termina um curso no SENAI ele está apto ao trabalho.
Com quantos você veio morar em Piracicaba?
Vim com 15 anos, ia completar logo 16 anos de idade. Fui o primeiro da
família a vir, morava com uma tia, na Avenida 9 de Julho, no Bairro
Jaraguá. Era a tia Noemi. Veio um outro irmão junto, passei
a trabalhar em uma oficina mecânica, lavava peças, fiz o
SENAI, aos 18 anos de idade passei a trabalhar na Dedini.em 11 de janeiro
de 1980. Com o tempo meu pai veio também, conseguimos comprar um
terreno no Jaraguá. Era uma casinha de madeira, com quatro cômodos
onde moravam os seis irmãos, meu pai, minha mãe, uma irmã
casada. Na época as ruas eram de terra. Morávamos na Rua
Pedro Morato Kraembhul. Para ir a missa na Igreja São José
ou trazia um segundo sapato ou um pano para limpar os pés de barro.
Qual sua primeira atividade na Dedini?
Comecei como ajudante de produção. A minha função
era ajudante de caldeireiro.
Houve uma mudança radical entre o ambiente rural e o industrial?
A zona rural não oferecia uma série de benefícios,
mas nos anos 80 ainda não tinha essa discussão muito forte
que existe hoje dentro do ambiente industrial. Eu tinha uma participação
na pastoral da juventude, na Paróquia São José, na
Diocese, foi isso que me levou ao sindicato. Posso afirmar que na Dedini
não havia ainda o restaurante, os convênios médicos,
apesar de já oferecer diversas vantagens, não tinha essas
condições que hoje são básicas. Como funcionário
da Dedini eu já começava a reivindicar convenio médico,
café da manhã, sapatão de segurança para trabalhar.
Com isso em 1984 eu já era diretor do sindicato.
Passou algum dia pela sua cabeça seguir a carreira eclesiástica?
Passou! Fui convidado por duas vezes nas Missões de 1979, a seguir
como seminarista. Tanto que tenho até hoje uma convivência
muito grande com a comunidade.
Quase José Luiz Ribeiro foi padre?
Quase! Fui conhecer o seminário, fiz visitas.
Foi influencia do Monsenhor Luiz?
Foi sim, e dos Missionários Redentoristas. Ainda continuo trabalhando
pela comunidade, tenho um carinho muito grande pelo jovem. A minha história,
o meu início, é fruto de um trabalho realizado com a juventude.
Se dermos oportunidades para a nossa juventude ela é fantástica,
não tem discriminação, gosta e precisa trabalhar.
Por isso defendo o primeiro emprego, tem muito jovem que se forma e não
dão oportunidade para ele. Posso afirmar que toda a minha história
começou com o trabalho que desenvolvi na Pastoral da Juventude.
Você participou dos tradicionais movimentos jovens da época?
Participei da Semana Jovem, SEJOPAC - Semana Jovem para Cristo, sempre
participei. Ali me despontei como líder de grupo de jovens, depois
da Pastoral da Juventude. Quando fui convidado para participar do sindicato
a comunidade me apoiou. Eu fiquei sócio do sindicato em 1982, em
1984 teve uma eleição, fui convidado pelo Elirio Oriani
conhecido como Meninão. Eu era o último suplente da diretoria.
Na próxima eleição passei a ser Primeiro Secretário,
depois fui Vice-Presidente e na eleição seguinte passei
a ser Presidente. Foi um aprendizado, nunca tive pressa.
Quantos associados têm o sindicato hoje?
Houve um trabalho muito forte que foi realizado pelos dirigentes anteriores.
A inserção na comunidade passou a ser mais evidente com
uma estrutura fantástica, contando com 5 advogados, 30 dentistas,
uma parceria com escolas técnicas como SENAC, SENAI, departamento
de previdência, Associação dos Aposentados, um clube
forte, hoje as inscrições ultrapassam 100 times de futebol.
A inserção política do sindicato também foi
fortalecida. Hoje contamos com mais de 12.000 associados, abrangendo Piracicaba,
Rio das Pedras e Saltinho. Estamos estendendo a base para Charqueada e
São Pedro, há uma previsão de crescimento da base
industrial nessas localidades.
É bastante significativa a abrangência do sindicato.
É grande e vai aumentar. Com a chegada da Hyundai, seus fornecedores,
outras empresas que devem vir á região. O setor metal mecânico
em 2011 deve chegar em 30.000 metalúrgicos.
Sua eleição como Presidente do Sindicato pela primeira vez
foi em que ano?
Foi em 1994, no dia 12 de janeiro. A cada 4 anos tem a reeleição.
Como vereador sua primeira eleição foi em que ano?
O primeiro mandato foi em 2004 com 7.907 votos. O segundo mandato foi
com 9.018 votos. Foi um trabalho, com uma história. Hoje o sindicato
é muito forte dentro das fábricas. Noventa por cento dos
trabalhadores tem refeição, café da manhã,
convenio médico, uniforme, vale compra, participação
nos resultados das empresas, cursos de qualificação profissional.
A própria ascensão do nosso clube foi muito significativa.
Defender o trabalhador dentro da fábrica é uma questão,
mas quando ele sai da fabrica ele é um cidadão. Fizemos
um projeto para defender além do metalúrgico, defender o
cidadão. No bairro dele precisava de creche, de escola, de asfalto,
de área de lazer. Quando ele perde o emprego ele também
perde os benefícios que ele tem. O sindicato passou a visualizar
essa cidadania. Entendemos que temos que defender o trabalhador dentro
da fábrica e o cidadão fora da fábrica. Esse é
o motivo para a candidatura para vereador.
O trabalho como vereador é complexo em decorrência da burocracia?
É muito complexo! Acostumados como lideres sindicais, afeitos a
realizações, sentimos a diferença, o vereador não
faz, ele fiscaliza, faz indicações. Pode fazer um projeto.
A burocracia do serviço público trava. Nós temos
conseguido realizar um mandato diferenciado. Quero agradecer ao Prefeito
Barjas Negri que teve essa sensibilidade também. Tomei posse em
primeiro de janeiro de 2005, no dia 4, o primeiro projeto de minha autoria,
foi desenvolver as escolas técnicas. Fui visitar a Escola Industrial,
do Centro Paula Souza, hoje Escola Febeliano da Costa. A partir dali senti
a necessidade de desenvolver esse setor, Piracicaba poderia ter um crescimento,
por causa do setor sucroalcooleiro. Achamos que tínhamos que preparar
essa mão de obra. Começamos em 1994, como sindicato. Como
vereador foi feito um trabalho mais aperfeiçoado. O Centro Paula
Souza que tinha 400 alunos tem mais de 1.400 alunos. A escola foi totalmente
reformada. O prefeito nos ajudou muito. O jovem, o trabalhador tem que
estar constantemente qualificado. Todas as conquistas de escolas técnicas
criadas em Piracicaba, foi fruto de um trabalho que participamos efetivamente.
O empresário quando procura uma cidade busca estrutura já
existente.
Há alguma aspiração maior por parte de José
Luiz Ribeiro?
Acho que o trabalho que tenho desenvolvido deu essas credenciais. Sou
Diretor da Federação Parlamentar dos Metalúrgicos,
Membro da Força Sindical, da Confederação Nacional
dos Metalúrgicos. Todo homem público que tem como projeto
o bem comum, a qualidade de vida, ele tem que usar a política como
esse instrumento. Não com o objetivo de benefício próprio,
mas da coletividade. Quem saiu do Barreiro Rico e teve contato com pessoas
de expressão nacional como Covas, Geraldo Alckmin, Serra, Lula
deve seguir em frente.
Como é o Lula?
É tranqüilo. Nas duas vezes em que esteve em Piracicaba, nos
encontros que tive com ele em Brasília, sempre ele foi muito espontâneo.
Como ele o chama?
Zé! Na última vez em que estive com ele, logo ele foi dizendo:
“- Nossa! Como você engordou!”.
Visitando empresas de outros países foi possível
perceber uma crescente maturidade na relação entre empregador
e empregados?
Estive duas vezes na Suécia, na Holanda, na França, México,
Coréia, três vezes nos Estados Unidos, China, tudo isso me
credencia a procurar a ajudar no melhor entendimento entre empresas e
empregados. O sindicalismo brasileiro é completamente diferente
dos sindicatos de cada país, ou como no caso dos Estados Unidos,
há uma variação em cada estado americano. Hoje muitos
sindicatos já estão trabalhando dentro de empresas, procurando
opinar na melhor produtividade de cada empresa.
No Brasil, em particular, o sindicato é visto como adversário
da empresa?
Ainda tem essa cultura, hoje ainda temos algumas alas do movimento sindical
que atuam de forma radicalista, uma atitude que não traz resultados
positivos para ninguém. Sempre fui a favor do sindicato de resultado,
de negociação. Tem que existir a empresa, para existir o
trabalhador e existir o sindicato. Defendo um sindicalismo reivindicatório,
que exija condição de trabalho, qualidade de vida, mas com
negociação. Acho que esse foi o grande salto do Sindicato
dos Metalúrgicos de Piracicaba. Uma empresa para dar lucro ela
tem que ter qualidade, produtividade, ela tem que ser competitiva.
Há uma carga tributária muito pesada sobre as empresas
e trabalhadores?
Ás vezes um trabalhador custa o dobro para a empresa. Além
da carga tributária que é altíssima, muitas empresas
tem que assumir encargos como transportes de trabalhadores. Na Europa
o salário do trabalhador é altíssimo, e você
não vê uma empresa oferecendo ônibus, plano de saúde,
seguro. O governo é obrigado a dar. Precisamos fazer com urgência
fazer uma reforma tributária em nosso país. Isso deve envolver
congresso, empresário e trabalhadores. Se todo imposto que é
pago revertesse ao trabalhador com certeza o salário do trabalhador
dobraria.

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