ENTREVISTADA: JANDYRA SILVEIRA
RAMOS
A senhora nasceu onde?
Nasci em Brotas no dia 12 de fevereiro de 1932. Meu avô materno
tinha uma fazenda de café no Alto da Serra. Meu pai Silvio Silveira
Mello tomava conta dessa fazenda. O pai dele João Batista da Silveira
Mello que tinha o cognome carinhoso de Lalau foi um dos primeiros médicos
de Piracicaba, ele foi casado com a filha mais velha de Prudente de Moraes,
Maria Amélia. Era o genro para quem ele escrevia. Foi ele quem
tomou as providencias necessárias para realizar a mudança
de Prudente de Moraes quando este terminou seu mandato como presidente
da república. Meu avô João Batista Silveira Mello
foi um dos primeiros médicos da Estrada de Ferro Sorocabana. Lembro-me
da família Martins comentar que ele foi médico deles. Minha
mãe era da família Camargo Simões, seu nome é
Jandyra Simões Silveira Mello. Os Simões de Brotas abriram
fazendas, era sertão, viam-se onças.
Seus pais tiveram quantos filhos?
O João. A Maria Amélia, conhecida por Lia, era muito bonita.
Não havia colegial em Piracicaba, ela fez um pouco em Limeira,
um pouco no Colégio Piracicabano, e quando abriu no Sud Mennucci
só tinha ela de mulher, a classe era de 33 alunos. Eram todos muitos
amigos. Ela conheceu seu marido, Hélio Candido de Souza Dias, da
família Souza Dias de São Paulo. Ele foi um dos maiores
agrônomos que conheci. Eles tiveram nove filhos. Depois vinha o
Silvinho, eu, Josette, e a Maria da Glória. É interessante
observar que a Josette era muito amiga de Monteiro Lobato, ainda moça
ela já escrevia. Monteiro Lobato quando escreveu Os Doze Trabalhos
De Hercules, estava na Argentina, de lá ele mandou para ela os
fascículos. Antigamente as frutas de Piracicaba eram maravilhosas,
e a minha mãe mandou para Monteiro Lobato uma caixa de mangas Bourbon.
Ele escreveu uma carta interessante dizendo que ele sempre pensou que
a Bahia fosse a rainha das mangas, mas que ele descobriu que Piracicaba
era a rainha das mangas!
A senhora conheceu Monteiro Lobato?
Conheci! Foi em uma visita em que a minha irmã Lia foi fazer a
ele. A única coisa, que me lembro de ele ter dito foi quando ele
me olhou e disse: “–Você é pernilonga quem nem o seu avô!”.
Ele e a esposa dele gostavam muito da minha irmã Josette. Quando
ele faleceu, sua esposa mandou de presente para a minha irmã Josette
uma tesourinha que ele utilizava para abrir suas correspondências.
O Dr. João Batista da Silveira Mello morava aonde em Piracicaba?
Ele morou na Rua Treze de Maio, entre as ruas Santo Antonio e Alferes
José Caetano, em frente aonde foi posteriormente o consultório
do médico Dr.Tito. O meu pai tinha um grave problema de visão,
e mesmo assim ele tomava conta da contabilidade da fazenda, com grande
competência. Essa sua deficiência visual o impediu de prosseguir
nos estudos. Seus irmãos prosseguiram nos estudos, um deles, João
Batista também, foi juiz, o Otávio da Silveira Mello tomava
conta do Jardim Botânico.
A senhora teve uma tia que foi prefeita em Limeira?
A minha tia, também neta de Prudente de Moraes, Maria Thereza Silveira
Mello de Barros Camargo foi prefeita em Limeira, foi uma das primeiras
deputadas.
A mãe da senhora, Dona Jandira Simões Silveira Mello
estudou onde?
A família dela era muito grande, minha avó teve muitos filhos
e a minha mãe era a mais velha. Com o tempo minha mãe entendia
o francês ela lia francês, em espanhol. Ela lia para o meu
pai que tinha sua visão deficiente. Eles leram todos os clássicos
portugueses.
O mais engraçado era quando eles iam ao cinema, com o tempo minha
mãe passou a ter uma pequena deficiência auditiva. Ambos
iam até o cinema, sentavam-se bem á frente da tela para
não incomodar as pessoas que ali estavam. Era um horror para quem
se sentava perto deles, porque minha mãe ia lendo as legendas para
o meu pai. Quem se sentava sempre por perto era Erotides de Campos e sua
esposa. Uma das lembranças que guardo da minha mãe era ela
mexendo as panelas com um livro na outra mão: lendo! Ela lia o
tempo todo! Discutia qualquer assunto. A família do meu pai era
muito ligada a leitura. Ela tinha um tio-avô, o Tio Nhô-Nhô,
ele era irmão da Carolina Ferraz Barbosa, esposa do Coronel Barbosa,
que deu origem ao nome do Clube Coronel Barbosa. Nós morávamos
na Rua Prudente de Moraes, na direção da cadeia, e o Tio
Nhô-Nhô morava em uma casa que existe ainda na esquina da
Rua Prudente de Moraes com a Rua Tiradentes. No tempo da Segunda Guerra
Mundial ele descia até a nossa casa para ouvir o Reporte Esso.
Já velhinho, ele entrava, e dizia: “Ó de casa!”. A criançada
respondia: “Entra Tio Nhô-Nhô!”. Começava o Repórter
Esso tínhamos que fazer silêncio. O apresentador entrava
no ar e dizia aos ouvintes: “-Boa Tarde!”, Tio Nhô-Nhô respondia:
“-Boa Tarde!”. Ele era lúcido. Todo dia ele ia a nossa casa para
a minha mãe ler as Notas e Informações do Jornal
O Estado de São Paulo. Ele estava tão acostumado, que para
ele só a minha mãe é que sabia ler essas notas e
informações! Ela lia bem, entendia o que estava lendo. Em
casa, o castigo era quando a minha mãe viajava para acudir um parente
doente, alguém era escalado para ler as Notas e Informações
do Jornal Estado de São Paulo.
A senhora estudou o primário onde?
Fiz o primário aqui no Prudente, que funcionava onde é hoje
o Museu Pedagógico Prudente de Moraes. Antigamente o ginásio
era no Sud Menucci, a relação dos alunos que passavam ficavam
expostas no Jornal de Piracicaba. Quando entrei na sala de aula a primeira
coisa que o Professor Benedito Dutra fez foi fazer a chamada dos alunos,
quando chegou o meu nome ele me disse: “- Dona Simões! Vamos ver
se não derruba a peteca!”. Por causa dos meus tios que eram muito
bons.
E piano, onde a senhora fez seus estudos?
Próximo da minha formatura foi incluído o curso de música
no currículo escolar. Os conservatórios só existiam
no Rio de Janeiro, em São Paulo e Campinas. Miguel Zigggiate ele
vinha para Piracicaba procurando levar alunos para o conservatório.
Eu, Cidinha Mahle, que estudava com Dona Dulce Rodrigues de Almeida, ela
tinha uma formação excelente como pianista. Eu estudei com
Dona Maria Wagner, uma senhora austríaca que tinha vindo ao Brasil
para dar aulas á filha de um fazendeira de café
Quantos filhos os pais da senhora tiveram?
Éramos seis. Tínhamos um irmão que faleceu em Jacareí.
O mais velho, João Batista Silveira Mello, é vivo ainda,
mora em Curitiba, ele era conhecido como João Fazendinha. Ele tem
filhos maravilhosos.
Ainda na fazenda a senhora teve aulas de canto?
A Dona Dirce Rodrigues nos ensinava a cantar, na época eu deveria
ter de cinco a seis anos de idade. Quando viemos morar em Piracicaba ela
tornou-se nossa amiga. Ela era muito amiga. da minha irmã Josette.
Essa minha irmã foi pioneira no ensino de musica para bebês
a partir dos 10 meses. No ano passado a Universidade Federal de São
Carlos implantou esse curso de música.
A senhora tem algum parentesco com o Sr. Rubens Silveira Mello?
Eles são parentes do meu pai. Meu pai conhecia bem Dona Diva, irmão
do Silas e do Celso Silveira Mello.
A senhora tem quantos filhos?
A mais velha é a Esther, médica, professora de genética,
trabalha com pesquisa na USP. Ela tocava vilino e depois tocou viola na
orquestra do Maestro Ernst Mahle. Por três vezes ele foi á
Bahia para completar a orquestra da Universidade da Bahia. Depois dela
nasceu a Ruth, já falecida. Em seguida a Rachel que é engenheira
química, ela trabalhou por treze anos na Gessy Lever. Hoje ela
está na Itália com o marido. Conseguimos formar os quatro
filhos, dois na USP e dois na Unicamp. O Caio fez direito na São
Francisco em São Paulo. Hoje ele é um dos diretores mais
novos da Assembléia Legislativa. Ele gosta muito de escrever. Ao
conhecer as músicas de Germano Mathias, gostou muito. Descobriu
que Germano estava vivo. Ele conseguiu fazer com que o Germano voltasse
á mídia, tendo inclusive escrito um livro sobre ele.
A senhora toca instrumento de teclado?
Por 30 anos toquei na Igreja Bom Jesus.
A senhora lecionou em Paraguaçu Paulista?
Lecionei e na a casa onde eu morava pertencia a um alfaiate, Sr. Adolfo
Grilli. Para ele eu era a filha mais velha.
A senhora tinha algum grau de parentesco como interventor Fernando Costa?
A esposa dele era prima do meu pai.
Houve um período em que o gado, cabra era tratado com carrapaticida?
Existiam em Piracicaba os banheiros carrapaticidas. Havia um lá
adiante da Metalúrgica Dedini e outro na Paulista. A cada vinte
dias o gado tinha passar por aquele banho. Era composto por corredores,
onde cada pessoa que tivesse gado, cabra levava seus animais para passar
por esse corredor. O serviço que o meu pai desenvolveu na escrituração
dessas atividades serviu como modelo para a Água Branca, São
Paulo.
A senhora lecionou em Londrina?
Quando eu me formei embora estivesse com os devidos registros, não
tinha a idade obrigatória para prestar concursos, quer era de 21
anos. Meu irmão trabalhava no Paraná, e eu fui ajudar a
minha cunhada a preparar uma festa de formatura. Era obrigatório
ter registro para lecionar, o que no caso eu tinha. Com isso dei aulas
no colégio particular, do estado.
Qual condução a senhora usou para ir á Londrina?
Fui de avião. Meu tio veio para cá e eu fui com ele. A comunicação
entre Londrina e Piracicaba era quase inexistente, o telefone levava horas
para poder completar uma ligação. A viagem de trem era constantemente
interrompida por queda de barreira. Quando chegava á Sorocaba era
um alívio. Em Londrina dei aulas de piano no conservatório
de lá.
A senhora chegou à idade de poder prestar concurso, para
onde foi designada?
Os concursos eram como provas de mestrado. Havia uma prova de erudição.
Uma prova em que a pessoa cantava Lá-rá-rá-rá
e você tinha que fazer as notas musicais correspondentes. Depois
tinha uma prova com o tempo de 40 minutos, sobre um tema sorteado 24 horas
antes. Uma aula dada em escola do Estado, sorteada também 24 horas
antes. Na Alta Sorocabana era o local mais próximo da minha irmã.
Eu saía de São Paulo ás 4 horas da tarde e chegava
a Santo Anastácio no dia seguinte ás 7 horas da manhã.
De presidente Prudente vim para Palmital, que é pertinho de Assis.
De Palmital eu fui Paraguaçu.
Quando foi que a senhora conheceu o seu marido Professor Algemiro
Coelho Ramos?
Ele lecionava latim em Paraguaçu. Ele morava com seus parentes
em uma casa que ficava em frente onde eu morava. Então eu ia e
voltava com, nós éramos muito amigos, ele tinha as namoradas
dele. Depois ele foi para São Paulo. O pai do Algemiro era de família
tradicional de Itapetininga, daqueles tradicionais coronéis, uma
figura imponente, tinha muita semelhança com Washington Luiz. Na
época de Getulio Vargas ele foi preso, pensaram que estavam prendendo
Washington Luiz! E ele com maior orgulho! Aos 7 anos de idade a mãe
de Algemiro teve morte súbita. Ele foi morar com uma tia em Itu.
As Irmãs de São José perceberam que o Algemiro gostava
muito de estudar, a madre o aconselhou a entrar para o Seminário
em Pirapora dos Padres Premonstratenses. Só que ele não
tinha a vocação sacerdotal. Quando teve que passar para
o Seminário Maior em São Paulo, ele estava desapontado,
conversou com os padres, que o apoiaram na sua decisão. A sua tia
foi informada da sua decisão, e como ela tinha mudado para São
Paulo ele foi morar com ela. Prestou exame para a Faculdade de Filosofia,
entrou, e arrumou emprego em um banco. Quando ele concluiu a faculdade
conseguiu uma substituição grande para dar aula de latim
em Paraguaçu.
Onde foi o casamento da senhora com o Professor Algemiro?
Foi na Igreja São Judas Tadeu, em São Paulo, no dia 10 de
janeiro de 1962. Foi um casamento muito simples.
Ele era uma pessoa muito franca?
Era de uma grandeza, muito preocupado com os outros. Tinha muitas pessoas
que o adoravam.
Em que ano ele faleceu?
Foi dia 4 de maio de 1995. Quanta gente ele ajudou, quantas apresentações
por carta ele fez! Quantas bolsas ele conseguiu no CLQ, com o Turcão,
com Wilson Saito. Em Paraguaçu o Banco do Brasil estava construindo
uma agencia, a moçada animou-se, lá não havia muitas
oportunidades de trabalho. Pediram ao Algemiro que os preparasse para
o concurso do Banco do Brasil. Todo dia ás 6 horas da manhã
estava abrindo a escola, deu as aulas pra eles. Passaram todos! Um vez
Algemiro e eu fomos passear em Paraguaçu, passamos pela porta do
Banco do Brasil, quando um dos funcionários nos viu, saíram
todos de dentro do banco. Aqui em Piracicaba ele era procurado por pessoas
das mais diversas faixas etárias para conversar com ele quando
tinham problemas.

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