ENTREVISTADO: BRUNO PRATA
Os dois bairros rurais vizinhos, Santana e Santa Olímpia, é
formado em sua grande maioria por descendentes de tiroleses (trentinos).
Bruno Prata nasceu no bairro de Santana, no dia 7 de setembro de 1947.
Seus pais João Paulo Prata e Maria Balarim Prata tiveram seis filhos.
Bruno Prata está cumprindo seu segundo mandato como vereador em
Piracicaba. Além da sua atuação no legislativo ele
reúne grande experiência acumulada na assessoria á
prefeitos de Piracicaba. É tesoureiro da Pastoral da Caridade da
Diocese de Piracicaba.
Onde o senhor realizou seus primeiros estudos?
Foi na Escola Rural da Fazenda Glória. Em Santana permaneci até
um ano e meio de idade, depois fomos para Tabela. Lá a escola mais
próxima ficava no Bairro do Recreio, uns quatro a cinco quilômetros
da fazenda onde nós morávamos. A Escola da Fazenda Glória
ficava um pouco mais longe, nós íamos de charrete. Na época
havia a necessidade de alguém conduzir a charrete, inclusive porque
era a condução que levava a professora depois que ela descia
do ônibus que parava na Tabela.
Quem dirigia a charrete levando a professora?
Eu dirigia, na época tinha sete anos de idade, o percurso era de
uns oito quilômetros aproximadamente.
Qual é a origem do nome do bairro Tabela?
Havia no local uma placa indicativa para o bairro Recreio. Então
dizíamos que ali era Tabela do Recreio. Assim como Santa Luzia,
foi o nome dado pelo Seu Pedro Mariconi, que tinha problemas de visão
e foi curado, fato que ele atribuiu á Santa Luzia. Quando ele resolveu
prestar essa homenagem á Santa Luzia ele procurou meu pai para
ajudá-lo a conseguir mais adeptos ao seu propósito.
O pai do senhor exercia qual profissão?
Ele trabalhou na lavoura de café, aos vinte e cinco anos de idade,
passou a trabalhar como barbeiro, acumulando a função de
fabricar sapatos e arreios. Meus pais levantavam bem cedo e trabalhavam
até as 10 horas da noite, inclusive aos sábados e domingos.
Eles faziam arreios, tranças, laços, para serem usados em
animais que trabalhavam na preparação da terra, na colheita.
Não existia o processo mecanizado. Havia muitas encomendas dos
engenhos, das usinas.
O senhor trabalhou na fabricação desses produtos?
Aos sete anos de idade eu comecei a trabalhar com selaria. Voltava da
escola e já ficava trabalhando. Fabricávamos sapatões
para serem utilizados no trabalho rural, não usávamos pregos,
eram utilizados os “tornos” feitos de pinho, era um quadradinho com pouco
menos de um centímetro. Com a água ele dilatava e nunca
despregava, nem enferrujava. Após furar o sapato batíamos
com o martelo sobre esses pinos de madeira, fixando-os como se fosse um
prego normal. Não havia colas com a qualidade que encontramos hoje.
Eu fui me especializando em calçados, fazia sapatos ortopédicos,
sapatos femininos. Fazia o modelo, criava os moldes. A fabricação
era feita sob encomenda.
Quem usava sapatos era considerado como privilegiado?
Isso acontecia principalmente na zona rural.
Como o seu pai conseguia ter duas atividades tão distintas,
a de sapateiro e a de barbeiro?
É interessante! Quando a pessoa vinha procurar os seus serviços
de barbeiro ele tinha que inclusive trocar de camisa, além de uma
rigorosa limpeza das mãos. Na época a barba era feita com
o uso da navalha.
O senhor chegou a aprender o oficio de barbeiro?
Sim! Cortei alguns cabelos, fazia a minha barba com navalha. A melhor
navalha era a alemã solingen.
Acertar o fio da navalha é uma arte?
Como tínhamos a sapataria havia a facilidade de amolar na lixadeira,
usava-se o rebolo, depois tinha uma pedra mais fina e por último
o assentador.
Ao término do corte o cliente gostava de um perfume?
Utilizava-se Água Velva Royal Brilhar. A Bozzano veio depois.
Dizem que barbearia é um ponto fantástico de informação,
é verdade?
É o núcleo da fofoca! Fala-se de tudo!
O senhor lembra-se da primeira “vitima” em quem fez a barba?
Lembro-me sim! Foi um primo meu, Renato Prata Garibaldi, falecido recentemente.
O barbeiro era uma figura de destaque na comunidade?
Muitos iam para a barbearia para conversar. Alguns faziam consultas ao
me pai, relatavam intimidades, algumas vezes o meu pai tinha que auxiliar
a família.
O gosto do senhor por política nasceu ali na barbearia?
Creio que sim! Porque se falava muito em política na barbearia,
sobre Janio Quadros, Adhemar de Barros, Luiz Dias Gonzaga. É interessante
essa observação, porque meus irmãos não se
interessaram por política. Eu era muito curioso, procurava sempre
ouvir o que diziam a respeito do que era dito ali
Em que ano a família mudou-se para Piracicaba?
Foi em 1964, tínhamos uma sapataria chamada Casa Prata. Era na
Travessa Francisco Faria, 32 na Vila Rezende. A casa existe até
hoje. Lá foram realizados os melhores natais das nossas vidas.
Meu pai era vivo, tios, havia muitos amigos. Nossa casa era um ponto de
referencia, á noite, na passagem do Natal, havia muitas pessoas,
até mesmos os vizinhos iam até lá. As pessoas cantavam,
a alegria era muito grande. Hoje não existe mais esse tipo de comemoração
de Natal.
Era na época uma região menos urbanizada?
As ruas eram de terra, uma ocasião caiu uma carroça com
animal e tudo em uma vala produzida pela erosão, decorrente do
escoamento constante de águas servidas de uma empresa próxima.
Ali era uma região freqüentada predominantemente por pessoas
vindas de Santana, Santa Olímpia, Santa Terezinha, Charqueada.
Nessa ocasião a Casa Prata fornecia sapatões para
os operários da Dedini?
Fabricávamos sapatões com solas grossas de pneus, para as
pessoas poderem trabalhar com os lingotes de ferro, era comum o funcionário
trabalhar por meia hora no manuseio dos lingotes e depois ir tomar leite
gelado. Havia um constante revezamento de funcionários. A temperatura
era muito alta. Trabalhávamos em quatro pessoas na produção
da sapataria.
Com quantos anos o senhor casou-se?
Aos 22 anos de idade me casei com Eurides Barbosa Prata, nós tínhamos
nos conhecido na escola, no bairro Recreio. Na época o pai dela
era frangueiro. O trabalho dele era percorrer a zona rural, levando miudezas,
armarinhos, tecidos, produtos industrializados, que muitas vezes eram
permutados por ovos, frangos. Embaixo do carrinho de tração
animal havia uma gaiola, onde eram transportados os frangos vivos. Meu
sogro chamava-se Benedito Barbosa de Oliveira. A Eurides tinha mudado
para Piracicaba, quando mudei para Piracicaba a procurei.
Onde foi realizado o casamento do senhor com Dona Eurides?
Foi na Igreja da Imaculada Conceição, na matriz antiga ainda,
o celebrante foi Monsenhor Jorge Simão Miguel. Tivemos cinco filhos.
Após casarem-se onde foram morar?
Fizemos uma casa nos fundos da sapataria, nessa época já
não havia mais barbearia. Permanecemos lá até 1983.
Depois eu e a Eurides mudamos de lá.
Qual é a religião do senhor?
Sou católico, fui inclusive Procurador da Diocese por uns oito
ou nove anos, é um cargo normalmente exercido por um padre. O Bispo
na época era Dom Eduardo Koaik
Após exercer suas atividades na Casa Prata, o senhor seguiu outra
profissão?
Em 1973 comecei a trabalhar como corretor imobiliário, sou um dos
corretores mais antigos de Piracicaba. Na ocasião a Nova Piracicaba
começou a ter seus lotes vendidos. O responsável pelo loteamento
era o Coronel Antonio Bruno e o Capitão Laurival Oliveira, eram
funcionários da City, empresa incorporadora. O escritório
ficava na Rua Dona Francisca, onde é o Liceu hoje.
Até então a região onde hoje é a Nova
Piracicaba era o que?
Era canavial. O loteamento lá começou em 1972 com Ludovico
Trevisan, eram lotes padrões de 10 metros de frente por 30 metros
de fundo. A City comprou essa área, e o padrão por ela adotado
era de no mínimo 12 metros de frente.
A quem pertencia essa área?
Acho que pertencia também á Mário Áreas Vitier,
conhecido como Mário da Baronesa.
Onde ficava a casa da Baronesa de Rezende?
Ficava em uma chácara situada no meio do canavial. Próxima
onde hoje é a Igreja São Francisco.
Com a atuação do senhor na imobiliária os negócios
evoluíram bastante?
Em um período houve uma evolução.
Havia desconfiança por parte do piracicabano de que a Nova Piracicaba
poderia não ter o sucesso que teve?
Era difícil vender. Tinha-se que argumentar bastante, os lotes
de terreno tinham ruas sem saída, as pessoas ficavam temerosas.
O Coronel Bruno era um entusiasta do empreendimento, mostrava os padrões
europeus. Quando os compradores passaram a sentir segurança no
empreendimento houve uma grande procura pelos lotes. Nessa época
trabalhava na imobiliária meu pai e eu, funcionava no mesmo local
da Casa Prata.
O mercado imobiliário mudou daquela época para cá?
Não havia tantas exigências como existe hoje, zoneamento,
a escritura era passada de forma bastante rápida e simples Hoje
há a necessidade de tirar certidões, verificar se o imóvel
não tem pendências jurídicas ou comerciais.
A negociação entre comprador e vendedor era mais confiável?
Muito mais confiável!
Quando foi o seu primeiro contato com a política?
Com a abertura política em 1979, 1980 passou a existir a possibilidade
de criar-se partidos políticos. Criou-se o Partido Popular, PP,
Francisco Salgot Castillon que havia sido injustamente cassado readquiriu
seus direitos políticos. Houve a incorporação do
PP pelo PMDB para derrotar Paulo Maluf na célebre eleição
indireta onde Tancredo Neto venceu as eleições. Fui para
o PMDB, e eu saí candidato a vereador foi em 1982, a primeira eleição
da qual participei. E ganhei, fui o quarto mais votado de Piracicaba.
O prefeito na época era Adilson Maluf. Fui bastante combativo,
com atuação efetiva á favor da população.
Algumas das minhas atuações tiveram grande repercussão
na cidade. Após encerrar meu mandato fiquei um período fora
da política. Quando o prefeito Antonio Carlos Mendes Thame foi
eleito me convidou para ser seu assessor, meu trabalho era o de acompanhamento
de projetos do legislativo.
Como era o Thame como prefeito?
Muito rígido e muito trabalhador. Ás vezes, duas horas da
manhã tocava o telefone na minha casa, era o Thame ligando. Não
tinha horário, não almoçava, não jantava.
Mesmo quando fazia campanha, saia de madrugada com ele, as quatro cinco
horas, voltávamos meia noite, uma hora da madrugada seguinte, não
almoçávamos, comíamos alguma coisa, e trabalhavamos
sem parar. Com isso adquiri o vício de não ter refeições
regulares. Hoje eu mudei.
Quando o Thame terminou o mandato o senhor também deixou
a assessoria?
Sai quando terminou o período do mandato do Thame. Foi eleito como
prefeito Humberto de Campos. Ele me convidou para realizar o mesmo trabalho,
o que fiz durante sua gestão. Com a eleição do prefeito
José Machado, passei a trabalhar como assessor do deputado Thame.
Quando o prefeito Barjas Negri foi eleito exerci a função
de seu assessor. No segundo mandato do prefeito Barjas Negri, seis meses
antes do período eleitoral sai como candidato a vereador. Fiquei
como suplente da vereadora Rosangela Camolesi. Ela assumiu a secretaria
municipal de Ação Cultural eu assumi a suplência.
Como é trabalhar com o prefeito Barjas Negri?
Trabalhar com o prefeito Barjas Negri é bom por ser uma administração
que tem uma boa referencia popular, ele tem uma aprovação
recorde.
Hoje, como vereador qual é a sua bandeira principal?
Meu trabalho principal é o combate as drogas.
O senhor é um político por vocação?
Toda vez que me candidato a minha família é contra.
O que é Pastoral da Caridade?
Pastoral do Serviço da Caridade foi criada por Dom Eduardo, abrange
a todos os benefícios que a diocese faz: Pastoral da Criança,
Ceame, que trabalha com dependentes químicos, Projeto Recrear,
Banco dos Remédios, que distribui gratuitamente remédios
á quem não tem condições para adquirir. Essa
farmácia existe há 20 anos.
Quando o senhor assiste as imagens transmitidas pelas redes de
televisão, mostrando os descalabros que ocorrem em determinados
meios políticos qual é a sua reação?
Revolta muito, isso não é política!
Na sua concepção o que é política?
Política é o que definiu Thomaz de Aquino no século
XIII: “A arte do bem comum”. Pio XII disse algo formidável: “Uma
das maneiras mais belas de se praticar a caridade é através
da atividade política”.
A Igreja Católica tem uma grande força junto á
população, ela movimenta forças dentro do quadro
político que se apresenta?
Ela movimentava mais no tempo de João Paulo II, ela era mais ousada.
Com Ratzinger ele ceifou esse ímpeto revolucionário da igreja.
A CNBB se pronunciou, condenou atos reprováveis, mas não
dita ao clero qual deve ser a ação a ser tomada.
Qual é a saída para a política nacional?
A adoção do voto distrital, que infelizmente não
ocorre por falta de interesse de alguns políticos, por motivos
óbvios. O Parlamentarismo é outra solução.
Hoje, em tese, um analfabeto pode ser eleito.

|