ENTREVISTADO: ANDRÉ BUENO OLIVEIRA


Juiz de Paz, escritor, poeta, músico, contabilista, André Bueno Oliveira é imortal da Academia Piracicabana de Letras. Lançou recentemente sua obra “Herança de Poeta”. Realizou cerca de doze Coletâneas Espontâneas, 11 Coletâneas por vitórias em Concursos Literários, Premiações e Menções Honrosas em Piracicaba, cidades como Tatuí, São da Boa Vista, Cerquilho, Itapetininga, e outros estados como Paraná, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. A partir de 1988 começou a publicar seus poemas nos jornais “A Tribuna Piracicabana” e “Jornal de Piracicaba”. André atuou por décadas como contabilista na empresa Mausa, onde teve seu desempenho reconhecido. Pode-se afirmar que é um intelectual de números e letras. Após aposentar-se, assumiu a carreira de Juiz de Paz. Nasceu no dia 08 de julho de 1945, no Município de Laranjal Paulista, Distrito de Laras, popularmente conhecido como Capela de São Sebastião, à margem direita do Rio Tietê. Filho primogênito dos cinco filhos do casal Adriano Bueno de Almeida e Ana Oliveira de Almeida, quando André tinha 3 meses de idade sua família mudou-se para Piracicaba. Seu pai passou a trabalhar como serventuário na Escola Senai, na Rua Dr. Otávio Teixeira Mendes, próximo ao atual Terminal Urbano.

A família do senhor mudou-se em que ano para Piracicaba?

Foi no final de 1945, mudamos para a Avenida Madre Maria Teodoro, esquina com a Rua Maria Nazareth, abrangendo a área onde hoje se situa a Papelaria Takaki, essa área pertencia ao meu avô materno João Francisco de Oliveira. De lá mudamos para a Rua Fernando Souza Costa, a cinqüenta metros da Rua Marquês de Monte Alegre. Em seguida mudamos para a Rua São João, quase esquina com a Rua Dom Pedro I, na Vila Furlan. Era uma vila contendo seis casas, três de cada lado. Essas casas existem até hoje.

As primeiras letras o senhor aprendeu em que escola?

Foi no Sud Mennucci, minha primeira professora foi Dona Hilda, ela exerceu grande influência na minha atividade literária, não sei por qual razão, mas ela decidiu que eu tinha muita aptidão para recitar poemas. Para a comemoração da Proclamação da República ela deu-me um poema para declamar no pátio da escola, envolvendo alunos de outras classes da escola. André espontaneamente Poe-se a declamar o primeiro poema que apresentou ainda menino:
“Meu coração pequenino, guardo um mundo de carinhos; Amo papai e mamãe, adoro meus irmãozinhos; Há nele também lugar para os heróis brasileiros; pois não deixo de honrar aos seus vultos sobranceiros; conheço um pouco de história; Se me interrogam não coro; Hoje é quinze e cabe a glória ao nosso grande Deodoro; Pois nessa data altaneira, nasceu a monumental República Brasileira. Viva nosso Marechal!”

O senhor grava em sua memória até hoje esse poema na integra?
Acho que esse foi o único que gravei até hoje! No segundo ano primário a nossa família mudou-se para a Rua São João quase esquina com a Rua São Francisco de Assis, pertinho do Olho da Nhá Rita, nós íamos buscar água lá! Ali nas proximidades do Seminário Seráfico São Fidelis tinha muito eucalipto. A linha do trem da Sorocabana cruzava a Avenida Independência. Na atual Avenida 31 de Março, no trecho que passa sob a Avenida Dr. Paulo de Moraes, por cima havia a linha do trem da Companhia Paulista e sob ela a linha de trem da Sorocabana, onde hoje estão reformando, fazendo um novo viaduto.

Após a mudança de local de residência onde o senhor passou a estudar?
Do segundo ao quarto ano primário estudei no Grupo Escolar Dr. João Conceição, ao lado da Igreja dos Frades. No segundo e terceiro ano tive aulas com Dona Alzira Petz Prado, ela também me incentivou para a atividade poética. Eu não fazia isso por gosto e sim por obrigação, sempre tive capacidade para decorar os poemas. Dona Alzira me deu um poema chamado “O Casamento do Pato”, uma história engraçada, com um dialogo bem caipira.

Após concluir o curso primário aonde o senhor continuou seu estudo?
Fui para o Seminário São Fidelis, meu pai sempre foi muito religioso, era Mariano, por muito tempo ele trabalhou na Igreja São José, no conceito dele o ofício de padre era uma atividade muito importante. Fui para o seminário com onze anos, é difícil haver vocação nessa idade, isso para qualquer profissão. Os quatro anos de ginásio eu estudei como interno no Seminário Seráfico São Fidelis. Fui para Mococa para estudar o Clássico, voltado para Ciências Humanas.

No período em que o senhor permaneceu como interno no Seminário Seráfico São Fidelis, a sua família residia também em Piracicaba. O fato de estar interno e ter a família na mesma cidade provocava alguma nostalgia?

Eu não senti isso no período em que estive interno, a nossa família era de origem muito pobre, no Seminário encontrei dois ou três campos de futebol, eu jogava como ponta direita, tinha basquete, campo de tênis, piscina, os passeios mensais. Em média havia uma centena de alunos, divididos por turmas, conforme a faixa etária. Lá aprendi latim, grego, um ano de italiano, francês, inglês.

O senhor ajudou a celebrar muitas missas, lembra-se da introdução?
“Introibo ad altare Dei, ad Deum qui laetificat juventutem meam!” Traduzindo,: “Subo ao altar de Deus, o Deus que alegra minha juventude!”. Usei o turíbulo, na época era uma diversão poder usa-lo nas cerimônias, era uma honra, havia disputa entre os coroinhas para poder utiliza-lo. Turíbulo é um pequeno incensário utilizado na liturgia católica.

O senhor concluiu o clássico em Mococa?
Quando passei para o terceiro ano do curso clássico, saí de Mococa. Eu deveria ser removido para realizar o terceiro ano clássico em Nova Veneza, nesse intervalo acabei mudando de idéia. Fiz seis meses do terceiro ano clássico no Sud Mennucci. Só que pelo fato de ser o filho mais velho, tinha que ajudar a compor a renda familiar.

Onde foi o primeiro trabalho do senhor?
Foi no Cartório de Notas do Mozart Aguiar, ao lado do Cine Politeama. Meu serviço era datilografar escrituras. Entrava às cinco horas da tarde, pegava os livros onde eram redigidos os documentos e os transcrevia para as cópias. Éramos em dois, mantínhamos em ordem, no máximo as sete horas da noite estávamos indo embora. Só que eu necessitava arrumar um emprego em período integral, onde pudesse ter um salário melhor. Entrei na Mescli, Metalúrgica Santa Cruz Ltda, ficava na Avenida Bairro Verde. O proprietário majoritário era o Danelon. Permaneci na empresa até o período em que ela entrou em declínio. Minha atividade era a de auxiliar de custos. Em setembro de 1963 entrei para a MAUSA. Em 1964 fiz o Tiro de Guerra, embora achasse que seria dispensado em razão de ter o Curso Clássico, só que pelo fato de não ter concluído, não consegui a dispensa. Com isso fiz o Tiro de Guerra, cujo instrutor era o Sargento Cavalcanti, e trabalhei na MAUSA.Nessa época os diretores eram da família Bottene: Ari, Arthemio, João. Logo depois que Leopoldo Dedini passou a ser o proprietário. O professor da Escola Senai, Ernani Margoni, fez um bilhete em meia página de papel A-4 que dizia o seguinte: “Sr. Arthemio, apresento André Bueno Oliveira, filho do Adriano, é pessoa muito esclarecida, tem o curso clássico, vê se pode aproveita-lo”. Entrei como auxiliara de custos, levantar o custo para a fabricação de uma peça, quantas horas foram gastas para fabricá-la. O custo de operação de cada máquina utilizada. A MAUSA sempre atuou na área açucareira, petrolífera. Passei para a sessão de expedição, para emitir notas fiscais, eu tinha uma boa caligrafia, por um bom tempo as notas fiscais eram feitas de forma escrita manualmente, depois passaram a ser feitas por sistema computadorizado. Na MAUSA permaneci por 33 anos.

O senhor estudou contabilidade?
Quando entrei na MAUSA eu tei fazer a migração do curso clássico para o técnico de contabilidade. Sem perder o que já havia estudado, Não consegui, tive que fazer o Curso Técnico de Contabilidade desde o início fiz no Instituto Piracicabano, fui aluno de Henrique Cocenza, Barjas Negri.

Como era o Professor Barjas Negri?
Bem exigente. O Cocenza era descontraído, como sempre foi. Após concluir o curso de contabilidade, dentro da própria MAUSA passei a ser auxiliar de escrituração fiscal.
Na época havia um número restrito de empresas em Piracicaba.
Houve época em que o Grupo Dedini era meio fechado, se você saísse da MAUSA para ir trabalhar na Codistil, ou M. Dedini, ou Siderúrgica Dedini, havia uma análise mais apurada com relação ao ex-funcionário e pretenso candidato.

O cipoal de leis instituídas pelo governo sempre existiu?
Sempre. Não tínhamos os recursos de informações existentes hoje, nossos recursos eram
em primeiro plano o Diário Oficial, a parte fiscal da nossa empresa era muito bem organizada, tínhamos contadores na área fiscal, na contabilidade geral, recursos humanos. Tínhamos que ter tempo para ler o Diário Oficial, tanto do Estado como da Federação, assim como as revistas da época: IOB, Mapa Fiscal.

Como o senhor vê essa diversidade de leis?
Acredito que isso atrapalhe o desenvolvimento do país.
Essa profusão de leis existe por diletantismo de quem as elabora ou por interesses nem sempre muito claros?
Acredito que seja por interesses não muito claros. Tem muito legislador que nem sabe o que ele está aprovando. Mas está aprovando algo que irá beneficiar alguém. Se você tem alguém que irá ser beneficiado você faz a lei, aplicou essa lei para aquela determinada situação, pode ser que ninguém mais necessite dela.
É onde entram os famosos lobistas pessoas com boa articulação que promovem facilidades usando conhecimentos pessoais e obtendo lucro pessoal com isso.
Exatamente. Quem manda no país de verdade? Quem sabe dizer com exatidão quem manda? São os legisladores? Os deputados federais? Estaduais? Ministros? Eu acredito que quem manda mais é aquele que faz o país produzir!

Como é explicar á um estrangeiro o funcionamento da nossa legislação?
Nem tem como explicar. Nós ouvimos dizer que em outros países as coisas são mais simplificadas, só não temos como afirmar o quanto é simplificada a legislação de determinada nação. Que a nossa é complexa demais, não resta a menor dúvida. Até para especialistas em leis, como era o nosso caso, percebia-se que havia muita coisa, e diversas delas desnecessárias.
O Brasil era tico como o “País do Futuro” parece que o futuro chegou, as empresas estrangeiras estão voltando seu olhar para o Brasil. Só que o choque delas com relação ás leis é muito forte.
Por isso são criados incentivos momentâneos para as empresas que vem de fora. Depois que ele aceitar e se instalar, decorrido o tempo determinado pelo incentivo ele terá que se enquadrar na burocracia do país. Irão ter que se adequar a realidades que não estão acostumados a viver em outro país. Muitas vezes tínhamos que resolver problemas que não estavam dentro da nossa esfera de decisão consultávamos as fontes seja estadual, federal. Muitas vezes os próprios fiscais diziam que aprendiam conosco, pois levávamos problemas que eles nunca tinham visto na literatura fiscal.

Como o senhor passou a ser Juiz de Paz?
Em 1995 eu me aposentei, o José Flavio do Primeiro Cartório de Registro Civil, ficou sabendo que eu estava aposentado e me convidou.

Para ser proprietário de cartório o que é necessário?
Antigamente cartório era hereditário. Hoje já não é mais. Quando o oficial do cartório se aposenta, o cartório vai a concurso público. O cartório de registro civil basicamente faz o registro de nascimento, casamento e falecimento. Faz também reconhecimento de firma

O senhor se lembra quando oficializou o primeiro casamento? E a primeira diligência?
Em ambas as situações eu levei o texto escrito. Geralmente o cartório agenda os casamentos para sexta feira e sábado. A partir da nove horas da manhã, até as 16 horas e 30 minutos.

Em que mês se casa mais?

No mês de dezembro.

O mês de maio não é o mês das noivas?
Já foi. A quantidade maior de casamento sempre foi em dezembro, isso porque é verão, tem décimo terceiro salário, férias, se quiser fazer a lua de mel em uma praia irá ter certeza de que não vai passar frio.

Estamos sendo iludidos há muito tempo, quando a mídia diz que maio é o mês das noivas?
Não acredito que seja ilusão intencional, mas sim falta de conhecimento de causa para passar essa informação.

O casal pode casar simultaneamente no religioso e no civil?
Existe o casamento religioso com efeito civil.
Em grandes centros há o casamento civil e o cerimonial que deveria ser feito em uma igreja por um religioso, é feito por um amigo do casal, geralmente um bom orador. É um casamento sem nenhuma validade sacra.
Há um bom número de casamentos realizados apenas no civil, principalmente por haver algum impedimento religioso para a união do casal. Hoje é muito comum o Juiz de Paz realizar diligências, que é oficializar o casamento em locais pré-determinados, como chácaras por exemplo.O casamento religioso é feito apenas por aquele que tem autoridade religiosa.

O senhor já realizou casamentos entre pessoas do mesmo sexo?

O que chegou até agora ao meu conhecimento é que até o presente momento a legislação determina direitos civis equivalentes á ambos, legalmente, pelo que estou informado, não se trata de casamento como conhecemos tradicionalmente. Até o presente momento no nosso cartório ninguém nos procurou. Se a lei determinar que seja valido o ato de realizar o casamento de pessoas do mesmo sexo, somos obrigados a realiza-lo, não se pode descumprir a lei.

É costume, ao casar a mulher agregar o nome do marido, é possível o marido agregar o nome da esposa?
O homem pode incorporar o sobrenome da esposa ao seu nome. Isso já aconteceu no cartório diversas vezes. Pessoalmente não considero isso prático, pois a pessoa terá que alterar seu nome em todos os documentos, inclusive no certificado de reservista. O fundamento dessa atitude em assumir o nome da esposa e vice-versa é tido romanticamente como uma reciprocidade de carinhos.