Entrevistado: PROFESSORA DOUTORA NEIDE MARCONDES
DATA: (20 DE SETEMBRO DE 2008)
A Professora Doutora Neide Antonia Marcondes de Faria estará
lançando mais uma obra literária: “Na Trilha do Passado Paulista
– Piracicaba, Século XIX, Fazendas, Engenhos e Usinas”. Será no
próximo dia 26 de setembro, ás 19 horas e 30 minutos, na
Estação da Paulista. Em companhia do Professor Doutor Manoel Lelo
Bellotto (pai de Tony Bellotto), ela esteve dia 20 de setembro, sábado
passado, nos estúdios da Rádio Educadora de Piracicaba onde ambos
participaram do programa Piracicaba Histórias e Memórias. Conforme
o Professor Doutor Manoel Bellotto observa no preâmbulo do livro: “Neide
Marcondes neste Na Trilha do Passado Paulista, permite-se descrever, abordar
e analisar uma realidade geográfica, arquitetônica, agroindustrial
e empresarial, que abrange não só uma poética dimensão
histórica, pois se reporta às últimas décadas do
século XIX e as primeiras do XX, mas que mostra também, exuberante
e promissora nesta inquietante realidade. Sua definição espacial
foi pela macro-região de Piracicaba, na então Província
e no atual Estado de São Paulo; a preocupação fundamental
foi , além das referências às terras piracicabanas e ás
suas atraentes histórias, descrever e caracterizar o aí edificado
patrimônio rural, construído e disseminado em fazendas, engenhos,
usinas e engenhos-centrais, com suas arquiteturas, ambiências e entornos,
e sua exuberante realização agrícola consubstanciada no
plantio e na colheita do café e da cana, desta derivando a produção
do açúcar, de amplo consumo no Brasil e no exterior”. A autora
já publicou entre outras obras: “O Partido Arquitetônico Rural,
São Paulo do Século XIX”, “Na Trilha do Passado Paulista: Jesuíno
do Monte Carmelo, o Mestre de Itu”, “Entre Ville e Fazendas”, “(Des) velar a
Arte”, “Bernini...O Êxtase Religioso em Dobras e Catástrofes”,
“O êxtase do Martírio , São Sebastião em Bernini
e Debussy”, “Labirintos e Nós: Imagens Ibéricas em Terras da América”,
“Turbulência Cultural em Cenários de Transição, O
Século XIX Ibero-Americano”, “Cidades Históricas, Mutações
Desafios”. É intensa a promoção de exposições
e instalações propiciadas por Neide Marcondes, com obras de sua
autoria em inúmeras cidades do Brasil e do exterior como na Espanha,
Itália, França, Holanda. Obras suas integram os acervos artístico-culturais
da Universidade de Poitiers, na França.
A senhora escolheu a cidade de Piracicaba para fazer
o lançamento do livro, principalmente por ser a região abordada
por ele?
Esse trabalho é resultado de uma tese de doutorado defendida na Universidade
de São Paulo, na Escola de Comunicação e Artes. Isso já
faz algum tempo. Essa pesquisa foi toda elaborada para transformar-se em livro.
Mais interessante para se ler do que propriamente uma tese com todas as fases
científicas. Sou professora titular de História e Teoria da Arte
da Unesp fiz livre docência também na Unesp, no Instituto de Artes
e fui professora na Pós-Graduação da ECA, Escola de Comunicações
e Artes da Universidade de São Paulo, onde fiz meu doutorado.
Quanto tempo á senhora levou para escrever esse livro?
O início foi essa pesquisa de mestrado em artes, ainda na década
de 70. Toda essa pesquisa realizada progrediu na década de 80 tornando-se
quase uma continuação da pesquisa realizada para o mestrado.
Quantos livros a senhora já escreveu?
Além de artigos, periódicos, são oito livros. Alguns apenas
coordenando junto com o Professor Bellotto e outros autores, inclusive espanhóis
e portugueses. Em 1996 foi publicado um outro trabalho em que trata da influência
dos mestres de obras italianos na propriedade rural paulista, aqui de Piracicaba
e região de Tietê.
Como são escolhidas as capas dos seus livros?
Tenho escolhido as capas. Tenho uma filha que faz designer gráfico e
em algumas das capas ela também trabalhou. Eu também faço
uma linguagem artística de pintura e colagem.
Como foi que a senhora realizou as ilustrações e plantas
dessas construções rurais?
As propriedades rurais geralmente não possuem plantas, nem a programação
de todo o terreno, de toda a propriedade. Foi necessário que eu fizesse
um croqui na hora da pesquisa. Nem a própria planta baixa da casa é
encontrada. Existia a idéia ainda do chamado “risco no chão”.
Era feito um risco no chão, que era por onde deveria subir as paredes.
Para realizar essas plantas, fui fazendo esse risco no papel, e com a participação
de arquitetos, como Edgar Couto, foi que procedeu nessa linguagem arquitetônica
das plantas e da programação das próprias fazendas.
Se contarmos desde o início das pesquisas até hoje decorreram
38 anos, essas propriedades ainda permanecem?
Aqui em Piracicaba algumas casas já não existem mais. De uma forma
geral todas permanecem. Inclusive algumas foram restauradas. Outras propriedades,
como a antiga Usina Monte Alegre, os edifícios anteriormente utilizados
para a produção, bem como as casas então denominadas de
casas de colonos, estão completamente abandonados. O bairro ali está
inteiro. O Engenho Central em Piracicaba está sendo utilizado com finalidades
culturais. Quando eu fiz todo esse trabalho de pesquisa, houve também
um processo de conscientização dos proprietários. Alguns
diziam: “A senhora documenta e registra, porque isso eu vou por abaixo, de velho
chega eu!”. Eu procurava dizer que o fato dele possuir tanto terreno permitia
que ele preservasse aquele espaço. Acho que deveria haver um diário
de pesquisa, porque muita coisa acontece! Alguns proprietários recebem
o pesquisador muito bem, outros sentem um pouco de medo, são a princípio
desconfiados. Para realizar as fotos é necessário enfrentar dificuldades
naturais. Coisas interessantes acontecem! Ao lado desse levantamento de campo,
há a idéia da pesquisa histórica junto a documentos da
propriedade, e também o que foi feito no arquivo do Estado de São
Paulo, no arquivo de Piracicaba, nos Cartórios, para termos a origem
dessa terra.
Como a senhora vê a preservação de imóveis
antigos, inclusive na área urbana?
Existem várias controvérsias. Alguns arquitetos defendem a restauração,
mesmo que seja utilizado outro tipo de material diferente do utilizado originalmente.
Outra idéia, muito comum na Europa, é permanecer a construção
original, e eles constroem edifícios modernos ao lado ou atrás
da construção primitiva. Um exemplo que temos em São Paulo
foi o que aconteceu na Avenida Paulista na Casa das Rosas. Foi conservada a
construção anterior e construído o edifício abraçando
aquela casa. Há uma integração. Isso é bastante
novo. O pensamento de algum tempo atrás era por abaixo e construir os
novos edifícios. Esse novo conceito está prevalecendo agora, junto
ao patrimônio, arquitetos e historiadores.
Existem casos em que construções históricas evaporaram
na calada da noite.
Existe a atuação da especulação imobiliária.
Foi o que aconteceu também na Avenida Paulista, em São Paulo,
com a casa da família Matarazzo. O alto preço do metro quadrado
praticado naquela região fez com que muitas casas construídas
no período áureo do café, desaparecessem na calada da noite.
Quem perde com isso?
É uma situação de cultura. Naturalmente quem perde é
a própria população, o entorno desse local.
A senhora acredita que é interessante para alguns não
conservar marcas do passado?
Também! Por razões pessoais, ou por simplesmente não haver
interesse.
Em seu livro a senhora cita que “só o novo, completo e belo é
valorizado”.
Exatamente. Existe uma situação também em que o restauro
é muito caro. É muito mais fácil e construir outra coisa.
São gastos milhões em outras atividades, porque não
há interesse em investir em cultura?
Já existe uma ligeira idéia em investir-se em cultura. A publicação
de livros, por exemplo, é uma ação muito dispendiosa. Tem
que ser feito um trabalho árduo existe leis que regulamentam o setor,
e o apoio pode sair ou não. Em particular, no caso deste livro, me sinto
honrada por ter uma publicação do Instituto Histórico e
Geográfico de Piracicaba.
Qual foi a maior dificuldade que a senhora encontrou para realizar esse
livro?
Fiz uma especialização em História da Arquitetura com Leonardo
Benévolo (N.J. Nascido em Orta, Itália em 1923, Leonardo Benévolo
estudou arquitetura em Roma e doutorou-se em 1946. Desde então passou
a ensinar História da Arquitetura nas Universidades de Roma, Florença,
Veneza e Palermo. Leonardo Benevolo é o mais conhecido estudioso italiano
da história da arquitetura. Publicou já muitas obras dentro da
sua área. Fonte de referência: Livraria Almedina) , quando ele
esteve em São Paulo dando esse curso. Os professores Nestor Goulart,
Benedito Lima de Toledo foram incentivadores desse trabalho. Inclusive o Professor
Nestor, em tom de brincadeira disse-me para realizar um trabalho envolvendo
o interior de São Paulo, porque os arquitetos não gostam muito
de sair para longe da sua prancheta. Assim foi que comecei. Primeiro conheci
a região localizando-a no mapa, a prefeitura ajudou muito contribuindo
com idéias, e em seguida indo a campo. Pegando o carro e saindo! Foi
necessário adaptar a linguagem para poder obter informações
sobre as construções. Muitas vezes recebia a resposta; “Tem uma
casa velha lá, aquela casa não serve para nada, porque a senhora
quer ir para lá?” Eu então tinha que explicar. Foi um período
de várias visitas á Piracicaba e região. Fazer esse trabalho
de entrar, pedir. Em alguns momentos fui muito bem recebida. Como na Chácara
Nazareth, pelo então Deputado João Pacheco e Chaves. Isso foi
em 1980.
Em suas pesquisas de campo foram encontradas telhas, tijolos com marcas
identificando-os?
Encontrei! Telhas da Fazenda Milhã, tijolos com algumas iniciais. Guardo
algumas peças comigo. Geralmente eram símbolos das próprias
olarias. Na Fazenda Pau D`Alho o que pode ser chamada de senzala tanto a estrutura
como as paredes eram feitas com pedras.
Existe alguma diferença entre as fazendas da região de
Piracicaba e as do Vale do Paraíba?
Na História da Arte conheci a arquitetura exuberante, deslumbrante, que
nós temos do Norte, do Nordeste, da Bahia, do Rio de Janeiro. São
Paulo sempre teve essa arquitetura, das casas bandeiristas, da casa do Padre
Inácio. (O Sítio do Padre Inácio, com sua casa grande,
tombado pelo IPHAN, constitui marco importante
do ciclo bandeirista-jesuístico e depois tropeiro na cidade de Cotia).
São construções com soluções plásticas
muito significativas, embora bastante simples. As casas do Vale do Paraíba
são mais antigas, pela entrada do café, que se iniciou no Vale
do Paraíba e depois veio para São Paulo e Oeste de São
Paulo. Hoje existem muitas casas restauradas, que se transformaram em pousadas.
São casas mais bem elaboradas plasticamente. Inclusive em seu mobiliário.
A senhora freqüenta um ambiente bastante intelectualizado em São
Paulo e também o ambiente mais simples do interior. Como o intelectual
do grande centro vê o interior?
Há um interesse muito grande no interior de São Paulo, que é
um interior muito rico culturalmente. Estão descobrindo esta parte do
interior de São Paulo. Inclusive esse trabalho já foi apresentado
em um congresso em Carmona, Sevilha. A arquitetura rural, especialmente a de
Piracicaba, foi apresentada aos espanhóis. Já há um interesse
muito grande nesse interior, particularmente de São Paulo.
O Brasil que se resumia no eixo Rio-São Paulo está voltando
seus olhos para o interior?
Sim. Inclusive com preocupação com essa plantação
progressiva da cana de açúcar. Podemos imaginar essa plantação
próxima do Pantanal, próxima da Floresta Amazônica. Em 1980,
quando fui entrevistar o dono da Fazenda Milhã, ele disse-me que estava
bastante preocupado. Note que isso foi em 1980. Ele disse-me: “Em qualquer época
vamos ter só cana, não teremos mais arroz e feijão. Isso
me preocupa”.
Essas propriedades que a senhora visitou são todas produtivas?
Todas elas são produtivas. Algumas com produção de subsistência.
Todas elas tem uma produção.
