ENTREVISTADA: AUGUSTA KLEFENS MOURA
O uso de paletó e gravata fazia parte do vestiário
comum masculino. Inúmeros lugares barravam a entrada se o indivíduo
não estivesse “decentemente” vestido. Os alunos da ESALQ só
podiam assistir ás aulas se estivessem “devidamente compostos”
com terno e gravata. Não se admitia a entrada em uma sessão
de cinema sem terno e gravata, assim como em bailes. Muitos utilizavam
o serviço de lavanderia, em Piracicaba a Lavanderia Moura e a Lavanderia
do Mário eram muito populares.
Augusta Klefens Moura do alto dos seus 98 anos distribui simpatia e otimismo.
Costuma ler diariamente o seu jornal, assiste aos noticiários da
televisão e acompanha uma novela quando se interessa pelo tema.
Filha de José Klefens e Augusta Alves Klefens nasceu no dia 29
de dezembro de 1913 em Laranjal Paulista. Casou-se em Botucatu com Antonio
Martins de Oliveira, ferroviário. Viúva conheceu em Laranjal
Paulista Domingos Deolindo de Moura com quem se casou, ele era proprietário
de uma lavanderia. Após uns três anos por volta de 1950 o
casal mudou-se para Piracicaba, tiveram treze filhos, sendo que dois faleceram
ainda muito novos, restaram seis homens e cinco mulheres. Alguns dos seus
filhos nasceram em casa.
Qual foi o primeiro local aonde a senhora veio morar em Piracicaba?
Na Paulicéia, no inicio da Avenida São Paulo, era ali na
baixada, quando chovia formava uma lagoa. Dali nós mudamos para
a propriedade do Antonio Zaia, na Rua Boa Morte com Rua Riachuelo, onde
começamos a Lavanderia. Moura.
Que máquinas a senhora utilizava na lavanderia?
Era tudo manual, não havia máquina. Só lavávamos
e passávamos roupas, utilizávamos ferro elétrico
e ferro a carvão conhecido como “Boca de Leão”. “- Olha
ele lá!” aponta Dona Augusta para um enorme ferro á carvão.
Porque esse tipo de ferro a carvão se chama “Boca de Leão”?
Por ser grande, fora do normal. Naquele tempo passava terno de linho branco
e casimira, com esse ferro a carvão.
Para passar um terno se enchesse o ferro com brasa só uma
vez já era suficiente?
Precisava estar sempre enchendo de carvão e ir onde tinha vento
para ele esquentar. Quem fala que agora trabalha, nem imagina como era,
hoje é moleza. Tem máquinas para lavar, passar. Antigamente
se lavava roupas no tanque, era tudo na mão.
Existia algum sabão especial para usar em lavanderia?
Eu usava sabão Minerva. No início só eu e meu marido
trabalhávamos tínhamos uma freguesia muito grande, tudo
gente boa. Alguns traziam a roupa para serem lavadas, outros eu ia buscar
em suas casas. E também ia entregar. Nossos filhos ajudavam a buscar
e entregar as roupas Fazia isso tudo a pé, fui uma mulher muito
forte. Sou descendente de austríacos. Nós adquiríamos
laranjas no Mercado Municipal e as crianças com uma carrocinha
de mão saiam vendendo pela cidade. A Dona Henriqueta do Mercado
Municipal forneceu por muitos anos pastéis e leite para mim e para
meus filhos. Eu lavava roupa para ela, trocávamos serviço
por alimento, só que ela sempre fornecia mais do que seria cobrado
pelo meu serviço. O Rosenthal também sempre foi um homem
muito bom, eu lavava as roupas da sua família, os ternos, e ele
dava muito dinheiro para as minhas crianças. Outro que ajudava
muito era o Cassab.
A senhora é religiosa?
Sou católica, mas não freqüento a igreja. A minha religião
é o meu coração, o que eu faço com uma mão
a outra não tem necessidade de saber.
A que horas a senhora costumava levantar?
Acordava as cinco e meia e ia dormir a noite, não tinha horário
para parar, sou muito experta, muito viva. Pra criar essa filharada toda
tinha que trabalhar bastante.
Qual foi outro lugar onde a lavanderia passou a funcionar?
Mudamos para a Rua Moraes Barros esquina com a Rua do Rosário,
onde permanecemos por 15 anos, depois mudamos para a Rua Campos Salles.
Qual era a roupa mais difícil de passar?
Era o linho branco, o famoso linho 120. Esse não era fácil!
Às vezes tinha que lavar com pressa, não havia máquina
nenhuma, ficava todo riscado de sabão tinha que voltar a peça
para o tanque de novo. Para secar a roupa era colocada ao sol., no tempo
de chuva recolhia a roupa dentro de casa onde tinha os varais. A roupa
era torcida na mão, naquele tempo os paletós tinham ombreiras,
enchimentos para deixar o ombro mais largo, o meu filho torceu tanto um
paletó que estourou a ombreira, tive que pagar o paletó.
Outra vez coloquei um paletó para secar na chapa do fogão
a carvão, esqueci, tive que comprar na Renner um paletó.
Roupas femininas eram também lavadas na Lavanderia Moura?
Lavávamos só roupa masculina. Roupa com mancha, quando aparecia,
nós nem pegávamos para lavar. Limão é bom
para tirar ferrugem de roupa branca, roupa de cor não pode colocar
limão. Um produto utilizado na lavanderia era o Tira-manchas Semorin.
Passava vela, dessas velas comuns, embaixo do ferro para dar lustro nas
camisas, nas roupas brancas.
É difícil fazer vinco em uma calça?
Tem que pegar um pano de meio metro, molhar, torcer e colocar sobre o
tecido que vai ser passado. Não era fácil, foi muito sacrifício
para começar a vida de lavanderia. Hoje tem tudo que é bom!
Além da Lavanderia Moura tinha mais lavanderias na cidade?
Tinha o Mário, era japonês, ficava na Rua Benjamin, depois
ele foi para o Mato Grosso, até hoje existe a Lavanderia do Mário,
só que é outra pessoa que é proprietária.
Piracicaba era muito diferente naquela época?
Era sim, agora está muito evoluída, com lavanderias modernas,
é o progresso.
A senhora acorda cedo?
Eu troco o dia pela noite! Às vezes ainda faço uma comida,
arrumo uma cozinha, varro uma casa. Ainda me viro! Não posso ficar
quieta. Bebo um copo de vinho todos os dias. Gosto de caipirinha. Às
vezes uma dose de uísque. Nunca tive problema de pressão.
Sempre tive muita saúde. Gosto muito de polenta com salada, a minha
polenta eu cozinho por uma hora.
A senhora conhece o mar?
Com 64 anos fui até Santos ver o meu neto que tinha nascido lá,
foi quando conheci o mar. Depois fui mais vezes. O meu marido tinha ciúme
muito grande de mim, sofri muito com isso.
A senhora era uma moça bonita?
As pessoas diziam que eu era uma moça muito bonita. Chamavam-me
de “Alemoa”.
Em que ano o seu marido faleceu?
Ele faleceu em 1980.
A senhora tem muito bom humor.
Graças a Deus! Não tenho tristeza, sou muito alegre, divertida.
A senhora assiste novelas na televisão?
Às vezes assisto novelas, vejo filmes, gosto muito de noticiário.
Assisto o programa Brasil Urgente do Datena. Fiz uma cirurgia no olho
direito, não foi bem sucedida, eu enxergo só com o olho
esquerdo. Gosto muito de ler, leio o jornal inteiro.
A senhora andava muito de bonde?
Eu morava na esquina da Rua Riachuelo com a Rua Boa Morte, veja que árvore
bonita que existe lá, eu que plantei. Quando o bonde vinha da Paulista
parava em frente a Farmácia do Zillo, quando vinha do centro parava
em frente de casa. Tinha um filho que trabalhava na lavanderia, quando
o bonde passava, ele se escondia, com vergonha das moças que estavam
no bonde. Na Rua Boa Morte, em frente a Padaria Cardinalli, (hoje Padaria
do Lar) existia a casa onde nasceu Adhemar de Barros, demolida, e hoje
é um terreno usado como estacionamento. Conheci um homem que tinha
perna de pau, era locutor na rodoviária. Uma figura muito conhecida
era a mulher da cadeirinha, ela não tinha parte de uma das pernas
e usava uma cadeirinha para se apoiar e andar.
Com seu bom humor a senhora encontrava sempre um apelido para
alguém?
Tinha um homem muito fino, era professor universitário, assim que
vi aquele homem, na hora lembrei-me da caricatura do “Amigo da Onça”.
Ele passou a ser conhecido na lavanderia como “Amigo da Onça”,
sem que ele soubesse. Era uma pessoa muito boa. Trabalhei muito para o
pessoal da Agronomia, tanto para professores como para alunos. Lembro-me
de um menino, hoje é um médico muito conhecido na cidade,
cuja mãe comprou um sapato bem maior do que o pé da criança,
ela dizia que se comprasse o sapato justo logo perderia, pois o menino
estava em fase de crescimento. Estávamos passando roupa, escutávamos:
“réqui, réqui, réqui...”, comentávamos: “-Fulano
vem vindo para ir á escola”.
A senhora ia passear aonde?
Meu marido era muito ciumento, não gostava que eu saísse.
Ciúmes não serve para nada, a pessoa tem que ter liberdade,
tanto o homem como a mulher deve ter confiança um no outro.
Qual é a receita para viver bem?
Ter muita amizade, beber vinho, caipirinha, um pouquinho de uísque,
e deixe que a água corra para lá. Trabalhar bastante. Ajudar
quem precisa de ajuda. O que uma mão dá a outra não
necessita saber. Não freqüento muito igreja ou religião,
meu coração é que manda.
A senhora cozinhava com fogão a carvão, é
difícil acender um fogão desses?
É só pegar bastante cavaquinho, colocar ali junto com o
carvão. Assim ia pegando fogo no carvão. Nós compramos
o fogão a carvão do Erotides de Campos, isso no tempo em
que ele morou na Rua Ipiranga. Dona Augusta põe-se a cantar a composição
de Erotides de Campos:
Cai à tarde tristonha e serena
Em macio e suave langor
Despertando no meu coração
A saudade do primeiro amor
Lungio se esvai lá no espaço
Nesta hora de lenta agonia
Quando o sino saudoso murmura
Badalada da Ave Maria
Sinos que cantam com mágoa dorida
Recordando em toda a aurora da vida
Cabe ao coração paz e harmonia
Na prece da Ave Maria
No alto do campanário
Uma cruz simboliza o passado
E o amor que já morreu
Deixando um coração amargurado
Ela diz: Como eu adorava essa música! O meu sogro é filho
do Capitão Rafael de Moura Campos com uma escrava de Botucatu.
Rafael de Moura Campos teve vários filhos com escravas, ele não
tinha vergonha de dar o nome dele aos filhos nascidos desses relacionamentos.
Na casa dos meus pais em Botucatu éramos em sete mulheres e um
homem, meu pai queria morar em Piracicaba. O meu avô, Leopoldo Klefens,
veio da Áustria e foi trabalhar na oficina dos Krähenbühl,
ele fazia o arco de ferro que era colocado nas rodas dos troles. Meu avô
morreu de apendicite, na época ele já tinha adquirido uma
grande área de terras, onde mais tarde foi construída a
Estação da Paulista.
A senhora conheceu o Espetete?
Conheci! Era um homem bravo. Tinha um filho e duas filhas muito bonitas.
Ele morava na Rua Alferes José Caetano, trabalhava na Escola Agrícola.
Conheci o João da Curva.
A Santa Casa era onde?
Em 1950 nasceu uma das minhas filhas, na Santa Casa, na Avenida Independência,
onde é estacionamento, plantaram feijão. Como não
existia carro para guardar aproveitaram o terreno, deu um feijão
muito bonito.
E carnaval como era?
Eu saí vestida de baiana na Zoom Zoom, a Zélia, que era
porta bandeira me convidou eu aceitei, na época eu já era
viúva. Saí vários anos na Zoom Zoom. Saí na
Banda do Bule.
O que a senhora pensa que acontece com a pessoa após a
morte?
O meu parecer é de que morreu, terminou tudo. Não tem mais
nada. Para saber com certeza é só morrendo! O que o espírito
vai ficar fazendo? Perturbando quem está vivo? Para quê?
Somos animais, a diferença dos demais animais é que somos
racionais. O que um animal sofre nós também sofremos, a
mesma coisa. Um cachorro tem sentimentos, é amoroso, é bravo,
quando ele odeia uma pessoa ela não pode nem ficar perto.
A senhora está preparando uma festa para comemorar seus 100 anos?
Será na Praça José Bonifácio.

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