Entrevistado: Geraldo de Andrade Ribeiro Júnior
Piracicaba é uma cidade em condições privilegiadas.
Detém tecnologia de ponta no setor sucroalcooleiro. Além
das empresas gigantes que operam na área mecânica e metalúrgica,
voltadas á esse setor, existe inúmeras empresas de médio
e pequeno porte, que se espalham pelo município gerando recursos
para a cidade e região. Um grande leque de diversificado de atividades
está se abrindo, com isso a cidade oferece uma gama enorme de produtos
e serviços nos mais variados campos.
Essa abrangência permitirá com que a cidade futuramente não
seja dependente de oscilações externas de um único
segmento de mercado. O município tem reconhecidas características
para fazer do turismo uma fonte de receita significativa. Está
engatinhando nesse setor. Se a renda gerada pelo turismo é atraente,
o nível do serviço prestado não admite nenhuma falha.
Isso requer um alto grau de profissionalização, uma firme
determinação nesse sentido. Se o turismo de massa ás
vezes parece atraente, ao mesmo tempo pode ser de baixo retorno financeiro
ao município, além de exigir uma infra-estrutura de grande
porte. O turismo qualificado traz um número menor de pessoas, porém
com maior disponibilidade financeira para usufruir o que a cidade oferece.
Gastam mais enquanto permanecem na cidade. A chave para atrair esse turista
chama-se cultura, que traz como subproduto a possibilidade do cidadão
piracicabano ter acesso á um grau maior de conhecimento intelectual.
São exemplos disso: a comemoração dos 100 anos da
imigração japonesa, realizada na Estação da
Paulista, onde o afluxo de turistas com bom poder aquisitivo foi enorme.
A Paixão de Cristo é outro exemplo. Este ano houve lançamentos
de livros, trazendo inclusive pessoas de outros estados brasileiros. Até
um bispo do nordeste! Quando a Festa das Nações começou
a ganhar características de mega evento, sabiamente foi repensada
e voltou a sua origem. O Salão de Humor é outro magnífico
exemplo de turismo cultural qualificado. Graças á iniciativa
do Clube Filatélico e Numismático de Piracicaba, do Teatro
Municipal através da sua diretoria, com o apoio dos Correios, além
de muitos abnegados que anonimamente trabalharam para que esse evento
ocorresse, Piracicaba passou a ser referência em mais uma área.
Realizou a Primeira Exposição da América do Sul com
selos de 1 Quadro. Para compreendermos melhor o que isso significa, entrevistamos
o especialista no assunto, o juiz internacional, Prof. Dr. Geraldo de
Andrade Ribeiro Júnior.
O senhor é natural de qual localidade?
Nasci na cidade de Franca, em 19 de julho de 1952. Resido há mais
de trinta anos em São Paulo. Sou engenheiro civil. Sou Presidente
da Federação Paulista que reúne 20 Clubes do Estado
de São Paulo, Presidente da Associação Brasileira
de Filatelia Temática.
Quando despertou o seu interesse pela filatelia?
Meu pai era filatelista, desde pequeno já tive contato com a filatelia.
Há uma idéia pré-concebida de que o filho de filatelista
não seja filatelista. Isso porque o pai impõe certas restrições
ao acesso da criança aos selos. Um zelo para que o selo não
seja estragado pela criança. Com isso o filho acaba pegando uma
bronca daquilo. No meu caso meu pai permitia o meu acesso aos seus selos,
com isso fui pegando o gosto pela área. No ano de 2009 estarei
fazendo 50 anos de filatelia! A minha primeira exposição
foi em 1959, esta aqui que estamos realizando em Piracicaba é a
minha 138ª participação.
Como era a reação da mãe do senhor com relação
ao fato do pai do senhor ser filatelista?
Toda mulher, não só na filatelia, mas em qualquer hobby,
ela acha que o homem se dedica mais ao hobby dele do que á outras
atividade. A mulher de uma forma geral tem ciúmes da atenção
que o marido dá ao seu hobby. Qualquer coleção que
é feita com paixão, qualidade, dedicação requer
tempo, e o dia tem24 horas somente! Esse tempo é tirado do tempo
de convívio com a família. Não é praticado
no tempo em que o indivíduo está trabalhando. As mulheres
têm um ciúme terrível desse tempo que dedicamos ao
hobby. Elas devem entender que não estamos fazendo coisas erradas,
estamos trabalhando com uma atividade cultural, salutar, e tudo isso dentro
da nossa casa!
Qual é a importância da exposição realizada
em Piracicaba?
Piracicaba tem uma longa tradição, mais de um século
em filatelia. E já teve uma exposição nacional em
1967. Agora, 41 anos depois volta a ter uma exposição nacional
Essa exposição é muito importante por abrir um novo
espaço em filatelia. Essas coleções de 1 Quadro é
uma nova porta de entrada para a filatelia.
O que é uma exposição de 1 Quadro?
Por regras pré-estabelecidas, uma coleção de selos
tem que ter no mínimo 80 páginas no tamanho A-4, para que
seja enquadrada como coleção. São no mínimo
5 painéis. Essa é a definição universal. Só
que muita gente não conseguia montar os 5 painéis. Com isso
ficava adiando a montagem por meses, anos. A exposição realizada
em Piracicaba está abrindo a possibilidade de que o expositor participe
com apenas 1 Quadro. É a Primeira Exposição Nacional
de 1 Quadro realizada no Brasil.
Quantos expositores vieram com seu material para Piracicaba?
São 58 expositores, representando 8 estados brasileiros. Temos
a participação de filatelistas do Rio de Janeiro, Bahia,
Minas Gerais, Distrito Federal, Ceará, Pernambuco e outros estados.
Essa exposição há uma carta de mais de quinhentos
anos?
É uma carta do século XVI. Ela está em uma exposição
de 1 Quadro de Cartas pré-filatélicas. A filatelia começou
em 1840, quando a Inglaterra lançou o primeiro selo. Antes de 1840
é chamada de pré-filatelia. Desde que o mundo existe, o
homem se comunica, quando inventaram o papel a comunicação
passou a ser feita pelo papel. Já na Idade Média havia correio
organizado, havia cartas.
No Brasil o correio começou a funcionar quando?
Simbolicamente a carta de Pero Vaz de Caminha é primeira carta
escrita no Brasil. Como éramos colônia, as regras do correio
de Portugal valiam para o Brasil. Em 1750, 1760, é que se tem correio
organizado em Ouro Preto, Rio de Janeiro, São Paulo. Só
no final do século XVIII que se teve uma organização
de correio.
Qual é o primeiro selo oficial do Brasil?
É o famoso olho-de-boi. Ele é famoso por ser o primeiro,
e recebe esse nome por parecer um olho de boi. Não é o mais
caro, nem tão raro, mais é o mais famoso.
O que motiva a pessoa a ser filatelista?
Os psiquiatras afirmam categoricamente que colecionar é normal,
salutar. Quem não coleciona alguma coisa tem algum problema! Isso
são eles que dizem, eu apenas repito!
As mulheres, embora neguem peremptoriamente colecionam sapatos, roupas.
O ato de colecionismo é normal, salutar. Os grandes acervos do
mundo inteiro começaram com ajuntamento de coleções
de pessoas. Todo grande museu começou com coleção
que vieram de pessoas.
Existe o risco de ser compulsivo?
Toda a atividade humana pode oferecer esse risco. Existe o indivíduo
compulsivo por sexo, o jogador compulsivo. Isso é uma condição
do ser humano. Seja no colecionismo, no jogo, isso é uma característica
própria do indivíduo. A filatelia não está
imune a isso.
Existem casos quase folclóricos de colecionadores que realizam
peripécias para conseguir o objeto do seu desejo?
Há pessoas que vende bens de sua propriedade para conseguir comprar
determinado selo, envelope com um carimbo de uma cidade. Há outras
pessoas que restringem suas despesas pessoais para adquirir determinada
peça. Existe muito folclore também. Como pessoas que possuem
uma pequena coleção de selos, freqüentam o meio filatélico,
acham que aquela sua coleção tem um valor extraordinário.
Dizem para a esposa que aquela coleção vale uma fortuna.
Ele um dia falece, a viúva vai vender e descobre que a tão
comentada coleção não vale mais do que 50 ou 100
reais! Na realidade o falecido vivia em uma ilusão de que a sua
coleção valia uma fortuna, que ele era proprietário
de uma magnífica amostra de peças raras. O colecionista,
isso em todas as áreas, tem o habito de supervalorizar seus objetos
de coleção. Sempre o nosso filho é o mais bonito!
O senhor exerce a função de juiz nas exposições,
julgar coleções de amigos é uma situação
bastante delicada?
Comecei muito cedo atuando como juiz, foi aos 26 anos de idade. Essa é
a minha qüinquagésima exposição. Para ser jurado
tem que ter conhecimento sobre o tipo de coleção que irá
julgar, participa de um júri como jurado observador, aprovado pelos
colegas, realiza provas. Sou jurado da Federação Paulista,
Brasileira e Internacional. Vou julgar na Europa, Argentina, ou seja,
onde houver necessidade.
Como é o colecionador europeu?
Colecionador é colecionador em qualquer parte do mundo. Na Europa
há mais disciplina, mais profissionalismo. Há um calendário
muito organizado. Aqui no Brasil não sabemos o calendário
do ano que vem. Não é porque não queremos, mas é
porque dependemos dos painéis do Correio. O grande apoio que o
Correio nos dá são os painéis. O resto é por
nossa conta. Com isso não sabemos se poderemos marcar exposição
para março ou para agosto, isso por que não sabemos se o
Correio emprestou para alguém nesse mês. Temos grandes dificuldades
em ter a nossa organização aqui no Brasil.
Existe alguma subvenção para o colecionador na Europa?
Na Europa os correios subvencionam as federações. Por exemplo,
a Federação Portuguesa tem um contrato de digamos 100 mil
euros. Eles têm a obrigação de realizarem as exposições.
Com esse dinheiro eles adquiriram um pequeno caminhão, compram
os painéis, e saem fazendo exposições itinerantes.
Em um ano realizam dezenas de exposições. Isso proporciona
o desenvolvimento da filatelia. No Brasil, para marcarmos uma reunião
com o Correio visando realizar uma exposição pode demandar
meses para que essa reunião ocorra. Já fui julgar exposições
na Rússia. Eles estão emergindo agora. Até o período
em vigorava o regime anterior eles só podiam fazer coleções
com selos da União Soviética. Não podiam realizar
a troca de selos com outros países, era considerada uma corrupção
ideológica. A China tem muitos colecionadores e está desenvolvendo
e incentivando muito.
A filatelia é um bom negócio para o Correio?
O Correio paga frações de centavos para emitir um selo.
Ao colocar á venda no balcão, o filatelista adquire aquele
selo e o leva para casa. O correio está simplesmente vedo um papel
estampado. Nesse caso ele não presta serviço. Se um cliente
adquirir esse mesmo selo e postar uma carta para o interior do Amazonas,
essa carta será manipulada em Piracicaba, irá para o centro
de distribuição de Piracicaba, para o centro de triagem
de Piracicaba. Seguirá em um caminhão com destino á
São Paulo. Em São Paulo passará pela triagem e embarcada
em um caminhão com destino ao aeroporto de Guarulhos. Colocada
em um avião será entregue em Manaus, onde passará
por uma triagem. Colocada em um barco, dali a uma semana será entregue
ao destinatário no interior do Amazonas. Quanto custa isso para
o correio? Muito mais do que o valor do selo! Incentivar em vender esse
“papel” pintado chamado selo é uma atividade feita pelo Uruguai,
Paraguai. O Brasil não incentiva essa atividade. O correio dá
lucro em todos os países. N Brasil o lucro do Correio era cinco
por cento do faturamento global. Um valor altamente significativo. Hoje
é de um por cento, ou até menos. O Correio parou de investir
na filatelia.
Com o advento da internet surgiu o e-mail, isso motivou a diminuição
de correspondências?
A correspondência pessoal diminuiu. A comercial muitas vezes implica
na remessa de documentos, que exige a remessa física dos mesmos.
Por outro lado, a internet proporcionou o aumento das vendas pelo meio
eletrônico, essas encomendas são enviadas pelo correio. Isso
compensou, e muito. Os namorados mandam e-mails. Mas quando o namorado
envia um presente isso é feito pelo correio.
Existe um caso famoso de um país que vivia da emissão
de selos?
Não há limites para a picaretagem. Um indivíduo montou
uma plataforma no oceano, utilizando metais e madeira. Lá ele criou
uma “República”. Hasteou uma bandeira, e emitiu selos. Ele ia pouco
á “República” dele. Os selos foram impressos por uma gráfica
norte-americana. Após a emissão dos selos ele os vendeu
em lojas especializadas. Isso foi em 1960, na ocasião surgiram
muitos países novos na África. Não havia a internet,
portanto era factível achar que o selo daquele “país” que
ficava em uma plataforma em mar aberto, também pudesse ser um novo
país! Com isso o criador dessa nação fictícia
vendeu muito selo no mundo todo. O mais interessante, é que quando
o Presidente Kennedy tomou posse o dono do “país-plataforma” mandou
uma correspondência, em papel timbrado da sua “nação”.
A Casa Branca recebeu milhares de cartas congratulando a posse do presidente.
O protocolo enviou resposta a cada um agradecendo. Ao receber a carta
de Washington, o proprietário do “país” a colocou em uma
moldura e passou a afirmar que se os Estados Unidos o reconhecia como
nação, quem iria ser contra a decisão da grande potencia?
Institucionalizou-se a picaretagem!
Há também grupos de comerciantes de selos europeus que criam
países fictícios na Ásia, determinadas ilhas. Eles
colocam esses selos á venda em bancas de jornal. Desovam milhões
de selos. Isso não é filatelia. Tem que ser selo emitido
por um país reconhecido pela ONU.

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