ENTREVISTADO: Prof. Dr. Francisco
Haiter Neto
A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em Piracicaba,
realizou, entre 5 e 9 de outubro próximo passado, o 5º Congresso
Internacional de Odontologia. Paralelamente, ocorreu a 16ª Jornada
Odontológica de Piracicaba. O evento prestou uma homenagem ao Prof.
Dr. Carlos Henrique Robertson Liberalli, primeiro diretor da Faculdade
de Odontologia de Piracicaba (FOP), em comemoração ao centenário
de seu nascimento. Ele foi nomeado por Jânio Quadros em 21 de setembro
de 1955 para exercer as funções de instalador e diretor
da faculdade onde permaneceu até o final de 1967. Faleceu no dia
26 de setembro de 1970.
O Prof. Dr. Francisco Haiter Neto é o atual diretor da FOP.
Dr. Haiter o senhor é natural de Piracicaba?
Sou de Leme, adoro Piracicaba e principalmente a faculdade. Vim á
Piracicaba para fazer mestrado, fiz doutorado em Bauru, o pós-doutorado
eu realizei nos EUA. Voltei á Piracicaba, passei a ser o professor
titular da área de radiologia odontológica e estou no cargo
de diretor da FOP já há três anos e que deve se estender
até dia 29 de agosto de 2010.
Qual é a idade do senhor?
Nasci no dia 12 de março de 1964, tenho 45 anos de idade. Para
registro, sou o diretor mais novo a ocupar o cargo. Assumi a função
aos 42 anos. Desde quando surgiu a FOP sou o décimo primeiro diretor.
Sempre gostei da parte administrativa, em 2005 quando estava na defesa
do meu concurso de titular, fui questionado quais seriam os meus projetos
futuros, visto que estava alcançando o grau máximo dentro
da escola, o de professor titular, com pouca idade. Na ocasião
eu disse que meu objetivo era de ser o diretor da FOP. Eu adoro a escola,
considero que ser diretor muito mais do que conferir importância
ou poder, é ter a oportunidade de servir a unidade que tanto prezo.
A atuação do diretor da FOP é semelhante
á de um prefeito de uma pequena cidade?
Praticamente é isso! Temos um orçamento, funcionários,
dificuldades, a parte administrativa política, a nossa participação
junto a toda administração da universidade em Campinas.
Além das necessidades fundamentais para o funcionamento físico
da unidade, existem os problemas acadêmicos, funcionais, de relacionamentos
interpessoais.
Um bom administrador tem que escolher colaboradores com elevado
grau de competência?
É importante que o administrador saiba sempre ouvir. Ter calma,
ponderar. Toda história tem sempre três versões: a
versão do narrador, uma segunda versão de outra fonte, e
a terceira que é a de fato o ocorrido. Nessas situações
a ponderação é fundamental para conseguir o discernir
a versão correta. È essencial ter excelentes auxiliares.
Não há tempo suficiente para o administrador abraçar
todas as áreas e fazer tudo que deve ser feito.
A clássica figura do “chefe”, diretor de empresa, que passa
junto aos subordinados ignorando-os formalmente, é uma postura
ultrapassada?
Totalmente ultrapassada! Recebo em meu gabinete o aluno, o funcionário,
o professor, a qualquer momento, desde que a agenda esteja livre. Hoje
não existem funcionários, são colaboradores. A faculdade
gira em função dos docentes, dos funcionários e dos
alunos. Considero que é um tripé impossível de ser
dissociado. A faculdade não existiria se não tivessem os
alunos, funcionários e docentes.
O senhor concentra poder e delega poder, Um ditado popular diz que: “Se
quiser conhecer uma pessoa dê-lhe poder”. Isso acontece de fato?
Sim, muito! Esse é um ditado extremamente verdadeiro! Nessas ocasiões
é que você realmente conhece as pessoas. Muitas vezes, com
um mínimo de poder a pessoa começa a extrapolar, julgam-se
donas do mundo, que podem passar por cima das pessoas. Inclusive desrespeitando
seus subordinados. Por outro lado, pessoas extremamente humildes, que
apesar de deterem poder de decisão, ela não usa da sua posição
para obter benefícios pessoais. Isso é próprio da
personalidade do indivíduo.
O primeiro diretor da FOP foi o professor Liberalli?
O primeiro diretor foi o Prof. Dr. Carlos Henrique Robertson Liberalli.
A história da FOP é muito bonita. Já tínhamos
uma faculdade de odontologia. A 18 de novembro de 1914, em reunião
no Theatro Santo Estevão, foi fundada a Escola de Pharmácia
e Odontologia de Piracicaba, posteriormente chamada de Escola de Odontologia
Washington Luiz. Depois de funcionar em vários locais, funcionou
na Rua Santo Antonio, 641, antiga casa de Prudente de Moraes, hoje Museu
Histórico e Pedagógico Prudente de Moraes, passando então
a chamar-se Escola de Odontologia Prudente de Moraes. Após a Revolução
Constitucionalista de 1932, Getúlio Vargas mandou fechar a Escola
de Odontologia que funcionou até 1935, formando a sua última
turma. Na década de 50 a sociedade piracicabana se mobilizou para
que voltasse a ter uma faculdade de odontologia na cidade. A FOP veio
de um ensejo, da vontade das forças vivas da época, de voltar
a ter uma faculdade de odontologia. Na época ela chamava-se Faculdade
de Farmácia e Odontologia, mas nunca chegou a ter o curso de farmácia.
Considero como sendo os fundadores todas as entidades e pessoas envolvidas
no processo de criação da faculdade: o Jornal de Piracicaba,
com Losso Netto, o prefeito Luciano Guidotti, entidades de classe, que
batalharam para que a faculdade fosse fundada. O Prof. Liberalli foi chamado
para ser o primeiro diretor. Na época o Prof. Liberalli já
era um expoente, uma pessoa muito culta, um líder na parte acadêmica,
tinha muita credibilidade.
Colocaram a pessoa certa para evitar desacertos?
Exatamente. Foram buscar a pessoa certa porque na fase de iniciação
era necessário ter uma pessoa com punho, com respeito, reconhecidamente
com poder dentro da sociedade acadêmica.
O prédio utilizado fica na esquina das Ruas D, Pedro I
com Rua Alferes José Caetano?
O prédio foi uma doação do prefeito Luciano Guidotti,
a prefeitura adquiriu o prédio e passou para a faculdade. A própria
faculdade em si era um instituto isolado. Somente após 10 anos
de funcionamento ela acabou sendo incorporada a Unicamp. A FOP é
um caso bastante peculiar, ela é 10 anos, mais velha do que a própria
Unicamp! Quando foi criada a Unicamp existia a Faculdade de Medicina em
Campinas e a Faculdade de Odontologia em Piracicaba, na época o
Prof. Zeferino Vaz que é o criador da Unicamp junto ao governo
estadual, decidiram que iniciariam a Unicamp já com as duas faculdades.
O início da Unicamp foi com essas duas faculdades. A FOP sempre
foi, e acredito que sempre será uma das unidades mais fortes dentro
da Unicamp.
O prédio onde anteriormente funcionava a faculdade pertence
a quem?
O prédio da Rua Alferes com a Rua D. Pedro I, foi doado á
Unicamp. Ali hoje se realizam dois trabalhos: o curso de Prótese
Dentária, gratuito, para a formação de protéticos.
E temos a parte social, que é um convenio entre a FOP, a APCD,
Arcelor Mittal e a Prefeitura Municipal de Piracicaba, aonde são
atendidas 3.000 crianças na faixa etária de 6 a 10 anos
de idade, que pertencem á rede municipal de ensino. É um
projeto muito interessante, as crianças vão de ônibus
fretado para o prédio, lá existe uma sala de aula, a professora
vai junto. A matéria do dia é ensinada normalmente, os alunos
se revezam na saída da sala de aula dirigem-se até o consultório
onde tratam dos dentes, e voltam para a aula normal. A classe inteira
trata dos dentes. Há uma merenda que é servida para eles.
Esta sendo construído no prédio um novo centro de especialidades
odontológicas e faz parte de um projeto grande, que começou
com o projeto Pró-Saúde do Governo Federal. A FOP foi contemplada
com recursos, estamos atuando com sete Unidades Básicas de Saúde,
as UBS, onde colocamos consultórios, nossos alunos vão até
lá para atender, fazer parte dos atendimentos á família.
Os atendimentos básicos são feitos nas UBS. Os atendimentos
mais complexos deverão ser encaminhados para a unidade do centro,
onde dentistas e alunos estarão trabalhando em 20 consultórios
recém adquiridos.
Nesse prédio deverá existir um museu?
Temos um acordo com a APCD, que já tem um museu odontológico.
Estamos cedendo um espaço para a instalação desse
museu naquele prédio. A parte superior do edifício está
precisando de alguns reparos que estão sendo providenciados pela
faculdade e pela diretoria do museu.
O senhor considera relevante a existência desse museu?
Considero que o povo que não tem história não tem
futuro. O museu sempre trás ensinamentos. É possível
conhecer a odontologia do passado, os equipamentos que eram utilizados
assim é que podemos projetar o que existirá no futuro.
Entre as atividades executadas pela FOP existem várias
especialidades, uma delas é a Identificação Humana?
Temos diversos setores que presta serviços que chamamos de extensão
a comunidade. Um deles é a Identificação Humana,
que implica em exames de DNA, de ossadas encontradas em cemitérios,
valas. É um processo muito interessante realizado pela área
de Odontologia Legal. Temos o atendimento ás gestantes e bebes,
até mesmo antes do nascimento é dada a orientação
necessária ás gestantes. O Centro de Radiologia Odontológico,
que faz exames radiológicos, para os dentistas externos. Atendemos
pacientes especiais Em outra área há tratamento oncológicos
e de doenças infectocontagiosas, portadores de AIDS, sífilis.
Há uma prestação de serviços onde são
feitas medições de flúor na água e em dentifrícios.
São feitas analises de flúor em água para mais de
40 cidades.
A FOP é o “Hospital de Clinicas” odontológico?
É! Temos uma área de cirurgia bastante atuante, que atende
aos pacientes poli-traumatizados, pacientes que colocam implante, pacientes
que tem a necessidade de fazer alterações da face. Correções
de mandíbulas.
O aumento expressivo de condutores de motocicletas teve como conseqüência
um maior número de intervenções?
Temos convênios com hospitais de Piracicaba e região. Nosso
serviço é bastante atuante, temos convênios com hospitais
de Limeira, Rio Claro, Piracicaba.
O senhor disse que faz parte de seus planos, ao encerrar o período
na direção da FOP voltar as suas atividades acadêmicas.
Existe a possibilidade de o senhor considerar um convite para ser reitor
da Unicamp?
Reitoria! Todo dirigente que gosta de dirigir, gosta de estar presente.
Nunca digo não. Digo talvez! Gosto do que faço, sinto-me
extremamente realizado como diretor.
Como é a relação da FOP dentro da Unicamp?
A FOP sempre foi muito forte dentro da Unicamp, o nosso segundo diretor
o Dr. Plínio Alves de Moraes foi o segundo reitor da Unicamp. Temos
um excelente relacionamento com o atual reitor, Dr. Fernando Ferreira
Costa, com os pró-reitores, chefes de gabinetes, isso tem trazido
um bom andamento dentro dos serviços. Eles costumam dizer que se
a administração de um diretor for positiva reflete na própria
Unicamp e se for negativa irá refletir também na administração
da Universidade.
Existe a construção de uma obra no campus da FOP?
Estão sendo construídas mais duas clínicas, visando
a aumentar o atendimento á população carente da região.
Como somos uma entidade mantida por recursos arrecadados através
de impostos no Estado de São Paulo, temos que dar o retorno para
a população mais carente. Posso afirmar que a parte de recursos
que são encaminhados ás universidade são muito bem
empregados.
O senhor permaneceu por dois anos nos EUA, quais são os comparativos
que podem ser feitos tanto de recursos materiais como formação
profissional?
Morei na cidade de Seattle trabalhando na Universidade de Washington,
de 1997 a 1999. No meu departamento não tínhamos nenhum
equipamento tão avançado que nós não teríamos
aqui. O que tínhamos era um pouco mais de organização
e mais tranqüilidade para trabalhar. Lá tínhamos mais
funcionários do temos aqui. Uma das coisas que acredito que ajudou
muito o Brasil no desenvolvimento das universidades é a estabilidade
da moeda. Principalmente na área odontológica não
devemos nada a nenhum país. As faculdades possuem equipamentos
de ponta para pesquisa em relação ao mundo. A odontologia
no Brasil produz mais de dez por cento dos trabalhos publicados no mundo!
Isso mostra o quanto á odontologia brasileira é desenvolvida.
Há estrangeiros estudando na FOP?
Cada vez mais está havendo esse intercambio de estrangeiros. Temos
muitos alunos latino-americanos que vem fazer pós-graduação,
mestrado, doutorado. Temos alguns alunos latinos americanos e africanos
na própria graduação. Cada vez estamos aumentando
esse intercambio.
O material utilizado na odontologia em grande parte ainda é
importado?
Ainda é importado. O grande problema na odontologia é que
o material utilizado ainda é caro. A indústria nacional
ainda não consegue fornecer. Na graduação cada vez
mais estão ingressando pessoas de baixa renda. A Unicamp tem um
programa de afirmação social chamado PAAIS que é
um programa de apoio a inclusão social, porém isso gera
outro problema, o curso de odontologia é um curso caro, o estudante
precisa adquirir seu ferramental. Em conjunto com a reitoria, conseguimos
recursos para adquirir kits que são emprestados para esses alunos
pelos quatro anos que permanecem aqui. É uma ajuda muito significativa.
Em conjunto com a reitoria foi criado para a FOP um auxílio moradia.
Após uma triagem, os alunos reconhecidamente carentes recebem esse
incentivo.
A Unicamp estabelece cotas para o ingresso do aluno conforme sua ascendência?
Não existem cotas. Acredito que a Unicamp tem o processo de inclusão
social mais inteligente possível. Ela fornece para os alunos carentes,
que tem toda sua formação na rede pública, são
pardos, negros, de origem indígena, pode ser branco mais tem que
ser carente. Na média é necessário que o aluno atinja
500 pontos para ingressar na Unicamp, para essas pessoas a universidade
oferece de 30 a 40 pontos. Essas pessoas entram para a universidade porque
realmente merecem. Um estudo mais interessante é feito pela Unicamp,
que acompanha esses alunos depois que entraram. Um ano após o seu
ingresso eles não têm nenhum tipo de defasagem com relação
aos que entraram sem nenhum tipo de pontuação inicial. Inclusive
a maioria esforçou-se tanto que passam a ser os primeiros alunos
da sala.

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