![]() |
| 23/12/08 - A moça da Catedral O vestido era preto e os cabelos eram longos e ondulados. Balançavam ao sabor do vento emprestando àquela admirável figura um ar um tanto brejeiro, um tanto selvagem. O vestido também ondeava nas curvas sutilmente reveladas em passos sinuosos e naturalmente sensuais. Em frente à Catedral, bem no centro da pacata cidadezinha, ela desfilou numa tarde nem fria nem quente, parece que até tinha chovido mais cedo. Não naquela hora, aquela hora a temperatura parecia perfeita. O taxista que ficava no ponto bem do lado da igreja ficou estático, enfeitiçado, assistindo à cena. Definitivamente não era todo dia que se via tão bela figura naquelas bandas. O hippie da feirinha de artesanato deixou o ar “blasé” de “tô nem aí” e pareceu hipnotizado por uns minutos. Só foi interrompido do transe pelas duas senhoras que insistiam em perguntar o preço de uns brincos feitos de miçangas e aproveitaram para repreender com olhares maldizentes para aquele rapaz tão desleixado. Duas mocinhas da lojinha em frente à pracinha pareciam mordidas de inveja, nem de longe poderiam transbordar aquele frescor da manhã como se tivessem saído de um campo de flores, passeando sobre concreto, em cima de um salto, como se flutuassem em campos de algodão. O cenário era perfeito, o público estava lá, pronto para aplaudir o espetáculo, não como se fosse teatro que se aplaude entusiasticamente com as mãos, mas para aplaudir sim com os olhos, com a alma. A pobre da moça, porém, tropeçou ao chegar à calçada. Estatelou no chão. Esbravejou impropérios indevidos às matinês, nem tomou conhecimento da platéia e seguiu pisando duro e chutando lata. Desfez o encanto. Cada qual seguiu seu rumo e o dia nem estava assim tão iluminado. Parecia até que ia chover de novo... 15/10/08 - Mestre |