Entrevistado: Adolpho Carlos Françoso Queiroz
Professor Doutor em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo.
Como você entrou para o meio de publicidade e
propaganda?
Na realidade a minha primeira paixão na atividade profissional foi no
jornalismo impresso. Comecei a trabalhar muito cedo, aos 15 anos de idade já
estava no “O Diário” de Piracicaba, como redator, como repórter.
Eu nasci em Piracicaba em 1956. Quando fui fazer o curso superior em Piracicaba,
isso foi em 1976, a Unimep só tinha dois cursos voltados para a área
de comunicação: Relações Públicas e Publicidade
e Propaganda. Anteriormente a Unimep tinha um curso chamado Habilitação
Polivalente. Os colegas que na época fizeram o curso acabaram conseguindo
registro no Ministério de Trabalho para atuar como jornalista. Com essa
habilitação era possível ser jornalista, publicitário,
cineasta, relações públicas, com essa habilitação.
Eu acabei optando por fazer o curso de publicidade. Sou da primeira turma formada
em publicidade pela Unimep. Passei a ter um conhecimento técnico, teórico,
especializado, sobre a área. Hoje tenho bastante conhecimento na área
de publicidade mais não abandono a área de jornalismo. Hoje já
estou no meu décimo primeiro trabalho editorial. Tenho feito trabalhos
sobre história do jornalismo, da propaganda. Nos últimos oito
anos na Universidade Metodista de São Bernardo do Campo me aperfeiçoei
no marketing político. Na propaganda política. As minhas últimas
publicações têm enfocado mais esse campo, que é o
campo de pesquisa que atualmente desenvolvo. Meu projeto na Metodista, no programa
de pós-graduação, as minhas orientações de
mestrado, doutorado, todas estão no campo da propaganda política.
A propaganda política é um campo novo da propaganda brasileira?
É e não é! O estudo que eu faço sobre a história
das eleições presidenciais no Brasil, desde Deodoro até
a época atual, já consegui fazer 25 dissertações
de mestrado. Prudente de Moraes planejava as campanhas políticas dele.
Ele se relacionava com a imprensa na época. Qual era o tipo de ação
de comunicação que ele fazia. Mesmo que não tivéssemos
o nome de propaganda política, nem de marketing político as ações
eram dessa natureza.
Como era o marketing político de Prudente de Moraes?
Pelo fato de se relacionar com a imprensa local e regional, constantemente ele
era notícia. Ele era notícia porque ele induzia a fazer a notícia.
Em um caderno ele tinha registrado os nomes das principais figuras que influenciavam
a opinião pública na época. Ele remetia cartas manuscritas
para essas pessoas pedindo dinheiro para a campanha e voto. No nosso Museu Prudente
de Moraes, no Museu Republicano de Itu, no Museu do Ipiranga em São Paulo
existem exemplares dessas cartas. Hoje se configura em crime pedir dinheiro
para eleição, mas naquela época ele fazia isso com a maior
tranqüilidade. A atividade do comício existia naquela época.
Uma outra ação de comunicação que ele fazia, e que
os americanos fazem muito hoje, ele pegava o trem em Santos e ia até
Ribeirão Preto. E em cada parada, havia um grupo que o precedia e na
própria estação ele fazia pequenos comícios. Estavam
presentes: o padre, o prefeito, a imprensa da época, diretora de escola,
delegado de polícia. E ele falava para 20 ou 30 pessoas. Em dois dias
ele fazia o percurso de trem. Isso gerava notícias por onde ele passava.
O Barack Obama que é o candidato á presidência nos Estados
Unidos, esse ano montou um onibus, junto com seu candidado a vice-presidente,
assessores, imprensa e fazendo de cidade em cidade um comício, aos moldes
do que Prudente fazia no século XIX. No ponto de vista estratégico
mudou pouco o jeito de fazer campanha. Só que o Prudente fazia a cavalo.
O que ele fazia era marketing político!
A imagem muito divulgada de Prudente de Moraes é de uma pessoa
sizuda, fechada. Isso é mitologia?
Quem faz política tem que ser uma pessoa agradável, senão
não tem voto. Podemos ter uma falsa impressão do Prudente pelas
fotografias que conhecemos. De uma pessoa austera, sempre muito bem arrumada.
Mas ele devia ser um bom interlocutor. Sua trajetória foi muito bonita
foi vereador, prefeito, deputado, senador para depois ser presidente da república.
Sua carreira foi sendo construída. Chamamos isso hoje do ponto de vista
conceitual de “Construção da Imagem Pública”.
Getúlio Vargas teve uma trajetória totalmente diferente?
É a partir do Getúlio é que temos a profissionalização
da comunicação política dentro do governo. Não só
em campanha mais no governo. Ele foi o primeiro a criar uma divisão,
o famoso DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda, que era um departamento
que tinha duas funções: uma era divulgar o próprio governo
e outra censurar os inimigos. Era uma avenida de mão dupla: para os amigos
ele arrumava empréstimos em banco, financiava papel, e para os inimigos
ele censurava. Todo o papel de imprensa na época quem controlava era
o governo. Para quem falava bem dele tinha papel toda semana, quem falava mal
uma semana tinha papel na outra não tinha. Dos ex-presidentes ele é
o mais lembrado no campo da comunicação. Ele trouxe o cinema,
a fotografia, a publicidade, o jornalismo para dentro do governo. Já
nos anos 40 começamos a ter um desenho mais profissional do campo como
serviço de apoio aos governos.
Como era a relação de Getúlio Vargas com Assis
Chateaubriand, que criou e dirigiu a maior cadeia de imprensa do país
na época?
Eram inimigos cordiais. O Assis Chateaubriand era amigo dele próprio.
Embora tivesse construído um império respeitável na época,
sempre teve uma linha muito truculenta de ação, os métodos
dele não eram muito ortodoxos.
Jânio Quadros foi um peso pesado da propaganda política?
Do Jânio teremos seguramente a imagem mais marcante de uma comunicação
política: foi a vassoura! A vassoura do Jânio é para limpar,
para varrer a corrupção. É o símbolo mais marcante
de todas as eleições no Brasil. Primeiro pela mensagem contida
na vassoura, de limpar, varrer é uma imagem muito forte. Um segundo fator
é que naquela época não existia a facilidade que temos
hoje em confeccionar bandeiras, faixas, essa coisa toda. E vassoura todo mundo
tinha em casa! Quem era adepto do Jânio, e muitas pessoas foram partidárias
dele, o simples fato de dependurar uma vassoura na janela, na porta de casa,
ou de varrer diariamente, alem do fato de que as pessoas irem trabalhar de bicicleta
com a vassoura, colocavam vassouras no carro. Existem fotos da campanha do Jânio,
nos anos 50, foi uma febre a vassoura do Jânio. E ele não teve
que gastar um tostão para que as pessoas aderissem. A vassoura já
pertencia á cada adepto. A peça publicitária já
existia na casa de cada um. Assim mesmo ele confeccionou botons, brochinhos,
lápis, aqueles que tinham uma borracha na ponta, para apagar, e por cima
da borracha existia a vassourinha. Então você usava o lápis,
apagava e varria a sujeira da borracha. Jânio introduziu alguns materiais
de propaganda política novos, interessantes.
De quem foi a idéia de utilizar a vassoura como símbolo
de campanha?
O neto dele, Jânio John Quadros Neto, filho da ex-deputada Dirce Tutu
Quadros, em entrevista ao professor Eduardo Grossi que fez a pesquisa para mim,
contou a seguinte história: Que o Jânio estava sendo pressionado
pela equipe dele para oferecer á sociedade alguma coisa em termos de
comunicação. Um dia, ao sair para o trabalho, despedindo-se de
Dona Eloá, que era a sua esposa, disse-lhe da sua preocupação
em arrumar um símbolo forte para a campanha. Dona Eloá, contemplando
uma vassoura, perguntou-lhe por que não usava a vassoura para varrer
a corrupção no Brasil. Segundo o neto do Jânio, a idéia
da peça de publicidade mais marcante do século XX foi de uma mulher.
Qual foi o primeiro jornal publicado em Piracicaba?
Na verdade foram pasquins manuscritos em 1822. Houve uma série de pasquins,
contra uma cerca que impedia o desenvolvimento da cidade além da hoje
Rua Prudente de Moraes, confluência da também hoje Rua Alferes
José Caetano. Foram feito versos criticando a posse da terra. Eram autores
anônimos. Acabaram descobrindo os autores e aberto processo judicial.
Ao que consta existe esse processo arquivado.
Foi realizada uma semana de publicidade em Piracicaba?
Realizamos a Primeira Semana de Publicidade da Faculdade Anhanguera. Consegui
focar a questão da publicidade local para os alunos. Quando eles conseguirem
formar-se daqui a 4 anos, boa parte deles deverá trabalhar no mercado
local. O pedido dos veículos de comunicação, jornais e
rádios da cidade é para darmos formação para profissionais
que ajudem não só a criarem publicidade, mas para vender publicidade.
Há uma demanda crescente do mercado por esses profissionais. Fizemos
uma homenagem á uma figura histórica da cidade, que é um
dos pioneiros da publicidade em Piracicaba, o Manoel de Souza Oliveira, o Gaúcho,
pai do também Gaúcho que se mantém na atividade publicitária.
O Manoel começou a trabalhar em Piracicaba nos anos 40, montou sua empresa
nos anos 50 na Rua Santa Cruz entre as Ruas XV e Moraes Barros. Ele fazia muitos
painéis, pintados a mão. Com isso procuramos mostrar aos nossos
alunos que a propaganda em Piracicaba não está começando
agora. Hoje temos cerca de 50 agências de publicidade estabelecidas em
Piracicaba. Nós estamos no limiar de uma nova era em que a comunicação
digital deve imperar, tanto na televisão, como no rádio, daqui
a pouco em nossos celulares.
Realizando um pouco de futurologia, como você vê o papel
dos veículos atuais?
Quando o rádio surgiu, em 1922, disseram que o rádio iria acabar
com o jornal. Não acabou. Em 1950 surgiu a televisão, que achavam
que iria acabar com o rádio e com o jornal. E não acabou! Em 90
veio a internet, que ia acabar com o rádio, com a televisão, com
o jornal e não acabou. Acredito que o jornal mude dessa atividade de
serviço de utilidade pública: plantão de farmácia,
programação de cinema, resultado de jogo de futebol, acidente
de veículos. E passe a ser um produto mais analítico. Talvez no
futuro o jornalismo exerça um jornal de debate, de opinião, de
entrevista, focado na questão da opinião, e não mais na
notícia. Terá talvez um papel educativo superior ao que tem hoje.
Com relação ao pequeno varejo, o melhor argumento de venda
de publicidade é a saliva ainda?
É a saliva. O papel dos veículos de comunicação,
rádio, jornal, televisão, é atrair o cliente para entrar
no seu estabelecimento. Eles colocam o cliente na porta do seu estabelecimento.
Quando o cliente entra a responsabilidade é do estabelecimento em vender.
Deve existir uma equipe de vendas preparada. Pessoas atenciosas, bem humoradas.
Bem vestidas. Que faça com que o cliente a partir do momento em que entrou
no seu ponto de venda, ele não saia de lá sem levar um produto.
Se não tenho um gravador X, mais eu tenho um modelo Y, Z ou W. O comerciante
tem que ter uma equipe de vendas interna que confirme aquilo que ele fez na
comunicação. O atendimento tem que ser cada vez mais valorizado.
Uma pessoa mal atendida não volta nunca mais. Não adianta fazer
o esforço de comunicação por maior que seja.
Você participou da fase de criação do Salão
de Humor de Piracicaba?
Sou um dos idealizadores, junto com Alceu Righetto, Carlos Colognesi. Só
não pude entrar formalmente na comissão organizadora por ter na
época por ter 15 anos de idade. O Carlos tinha 18 e o Alceu já
era um pouquinho mais velho. Sob a liderança do Alceu nós fizemos
a famosa viagem no Ford Galaxie preto. O motorista era de origem japonesa, o
Kaoro. O Alceu teve a feliz idéia de levar 6 garrafões de pinga,
adquiridos do Seu Júlio Romano, que ficava na Rua Regente Feijó
entre as Ruas Santa Cruz e José Pinto de Almeida. Passamos lá
antes de ir, colocamos os garrafões todos amarrados atrás do Galaxie.
Próximo a Campinas sentimos um cheiro de cachaça insuportável.
Paramos o carro e verificamos que com a pressão e com o sol as rolhas
saíram. Fizemos umas alquimias e fechamos os garrafões.
Hoje o Salão de Humor de Piracicaba tem uma repercussão
internacional?
É o mais antigo salão em evidência, com 35 anos. Quando
fizemos o primeiro salão ninguém poderia imaginar que iria ter
um segundo, um terceiro e muito menos um trigésimo quinto. Ao longo desse
tempo todo temos que reconhecer que o apoio da prefeitura envolvendo diversos
setores e pessoal, foram fundamentais para uma idéia despreteciosa se
tornasse um dos grandes cartões de visita de Piracicaba. Esse ano tivemos
7 trabalhos vindo do Irã. Uma pessoa lá no Irã fez um trabalho,
deve ter escrito Piracicaba para fazer a remessa pelo correio.
