ENTREVISTADA: IVETE D`ABRONZO
RONTANI
Em cima de um piano, tipo armário, repousa já
por algumas décadas a escultura da cabeça do artista plástico,
jornalista, cartunista, radialista, radioamador, desenhista, contador
e advogado Edson Rontani. Aos poucos Piracicaba parece acordar para a
importância desse artista. Um reconhecimento muito maior do que
obteve em vida. Parece ser o caminho trilhado por todos que se atreveram
a fazer da arte e da cultura um sacerdócio. Reconhecido e respeitado
pelo seu trabalho como artista gráfico conviveu com grandes mestres
da pintura. Colaborou por décadas com a coluna: Você Sabia?
Editada no Jornalzinho, que era o suplemento infantil do Jornal de Piracicaba.
Chargista, Edson deu forma ao personagem-mascote do XV de Piracicaba,
o Nhô Quim. O termo fanzine foi muito utilizado nos Estados Unidos
incorporando-se à linguagem brasileira no início dos anos
1970. Ele deriva das palavras fan (fanático) e magazine (revista),
entendendo-se como sendo a revista do fan, conforme explica Edson Rontani
Jr. Edson Rontani criou o primeiro fanzine nacional, o lançamento
ocorreu no dia 12 de outubro de 1965 com o nome de Ficção.
Dona Ivete mostra um quadro onde Edson escreveu seu nome em forma de acróstico,
quando ainda eram namorados.
Idolatro teu nome cheio de esperança,
Vejo-o gravado no mais lindo livro da vida
Embora o tempo devastador, que não se cansa,
Tragá-lo podia, porque firmemente
Em minha alma gravado estará eternamente
Edson
Ivete D`Abonzo Rontani a senhora nasceu em Piracicaba?
Nasci na Vila Rezende, a Rua Maria Elisa, na esquina com a Avenida Rui
Barbosa. Aí era a nossa casa, que depois papai derrubou para ampliar
a indústria. Nasci no dia 29 de abril de 1942. Minha mãe
Julieta Meira D`Abronzo também nasceu no dia 29 de abril. Meu pai
é o Comendador Humberto D`Abronzo.
O Comendador Humberto D`Abronzo ainda vivo já era uma pessoa
lendária em Piracicaba. É muito comum visitarmos outras
localidades e perguntam como vai o XV de Novembro, o Rio Piracicaba e
a Caninha Tatuzinho. Quando a senhora nasceu já era uma indústria
de grandes proporções?
O início de tudo foi uma fabrica de refrigerantes, que depois veio
a constituir a Caninha Tatuzinho.
O casal Julieta e Humberto teve quantos filhos?
Foram: o Sérgio, eu, a Ivone, o Paschoal e a Ivana
A senhora estudou onde?
Estudei no Grupo Escolar José Romão. Meu pai colocou meu
irmão Sérgio como aluno interno no Colégio Piracicabano
e eu como aluna interna no Instituto Baronesa de Rezende, a um quarteirão
de casa, era só atravessar o jardim e eu estava lá. Permaneci
por dois anos dos 9 aos 11 anos de idade. As visitas eram no segundo domingo
do mês, e eu vinha para casa uma vez por mês. Foi lá
que além do estudo regular, aprendi a tocar piano, com a irmã
Clemência, de origem austríaca, eu catava no coro, aprendi
a bordar. Foi a melhor fase da minha vida, acordava ás cinco horas
da manhã para ir á missa, voltava tomava banho, tomava o
café da manhã e ia estudar.
Como era o uniforme que era usado no Instituto Baronesa de Rezende?
A saia era azul-marinho, pregueada, a blusa branca de manga comprida,
gravata, e um avental xadrezinho que era usado para não sujar o
uniforme. O sapato era preto e as meias eram brancas. O sapato colegial,
aquele que tinha um risco no centro, uma espécie de vinco. A noite
rezava-se o terço, e ia dormir.
A senhora recebia algum tratamento diferenciado por ser filha
de um dos homens mais influentes da época?
De forma alguma! Eu queria ser freira, meu pai deixou que eu fosse junto
com uma freira conhecer um convento em Araraquara, onde assei uns dias.
Quando terminei o quarto ano do primário, passei a estudar o ginásio
na Escola Assunção. Nessa época ainda morava na Vila
Rezende. Meu Tio Jorge Vargas dizia: “Você vai ser freira, de dois
travesseiros!”. Quando terminei o quarto ano do primário, passei
a estudar o ginásio na Escola Assunção. Nessa época
ainda morava na Vila Rezende. Foi quando conheci o Edson. Ele trabalhava
no escritório do Posto São João, na esquina da Rua
Boa Morte com a Rua D. Pedro II. Em frente ao Colégio Piracicabano.
Ao lado tinha o bar de umas japonesas (hoje Restaurante Babilônia).
Eu ia ás vezes até o bar para comprar leite, só para
ver o Edson. Eu tinha 15 anos de idade.
Qual foi a primeira vez que a senhora viu o Edson?
Não me lembro se foi no posto ou se foi no jardim. Naquele temo
era costume quadrar o jardim. Eu ia com as minhas amigas e via ele lá.
Ele era amigo do Arthemio De Lello, e tinha mais uma pessoa, de estatura
mais baixa que eles. Os três estavam sempre juntos.
A senhora tinha quantos anos de idade quando passou a namorar o Edson?
Até os 18 anos de idade meu pai não permitia que eu namorasse.
Quando completei essa idade, ele admitiu o namoro meu com o Edson.
Qual era a altura do Edson?
Era quase um metro e noventa de altura, olhos verdes, usava um topete.
Ele era muito bonito!
Qual era o nome dos pais do Edson?
Eram Seu Guilherme Rontani e Dona Maria Sartini Rontani. Meu sogro era
marceneiro. Eles tiveram três filhos: O Milton, a Edna e o Edson.
A senhora e o Edson tiveram quantos filhos?
Tivemos três filhos: o Eron, Edson e Fábio. O Edson é
Jornalista, o Eron é publicitário e o Fábio é
artista gráfico. Tenho um neto fazendo jornalismo!
Em que igreja a senhora casou-se?
Casamo-nos em 16 de maio de 1963, na Catedral. O casamento religioso foi
super simples. A festa foi no Teatro São José, lá
sim foi muito chique. Foi a primeira festa de casamento realizada no Teatro
São José. A grinalda e a tiara eu trouxe da Espanha.
A que horas vocês casaram?
Estava batendo seis horas, meu pai exigia pontualidade. Ele entrou me
conduzindo ao altar, fiquei assustada em ver um grande número de
guardas com sua roupa de gala fazendo a guarda de honra. Meu pai segredou
para mim: “Fiz essa surpresa para você”. Foi muito bonita a entrada.
Quem fez o seu vestido de noiva?
Foi a minha cunhada, Elza Rontani, ela era modista.
Onde foi a lua de mel?
Fomos para Santos.
Qual é o hobby da senhora?
Piano e acordeom. Estudei ambos. Piano e só toco quando estou muito
triste. Eu amo fazer tricô. Sou voluntária em uma casa de
caridade, isso me deu muita força quando o Edson faleceu. Faço
sapatinhos, toda noite faço um par de sapatinhos, para doar. Faço
também mantas e gorros.
A senhora gosta de novelas?
Adoro! Assisto todas que são levadas ao ar pela Televisão
Globo. Para mim é uma terapia.
O que mais a impressionou em Edson Rontani?
A inteligência dele me conquistou! Desde solteiro ele desenhava,
pintava.
No Brasil ele foi um dos pioneiros em cartuns?
Foi, e ele sentia tristeza ao lembrar-se de que o primeiro salão
de humor foi começado com ele, eu lembro-me muito bem dessa exposição
De 1974 e 1976, ele realizou na Pinacoteca Municipal, o Salão de
Caricaturas de Piracicaba, expondo suas charges e caricaturas, junto com
outros artistas que então despontavam como Rudinei Bassete. Estas
caricaturas eram exibidas semanalmente, na Galeria Brasil, localizada
no centro da cidade. Denominada "O Mural", atraía a atenção
dos jovens que passavam pelo local, nos anos 70. Ele tinha um grande sentimento
por sentir que não deram o devido valor ao seu trabalho como precursor
do salão do humor. Edson foi homenageado com a instituição
de uma rua com o seu nome. O projeto de lei nº 5023, de autoria do
vereador Gustavo Herrmann, foi sancionado pelo prefeito José Machado
e publicado no Diário Oficial do Município, no dia 22 de
setembro de 2001. O Deputado Estadual Roberto Morais (quando era vereador
em Piracicaba), foi autor de uma lei criando a Sala Edson Rontani no Teatro
Municipal Dr. Losso Neto. Foram homenagens póstumas. Está
sendo realizado um processo para denominar com o nome de Edson Rontani,
uma escola em Piracicaba. Como artista plástico, dedicou-se à
pintura a óleo. Foi aluno de Frei Paulo Maria de Sorocaba, nas
décadas de 40 e 50. Nos anos 70, foi aluno de Hugo Benedetti.
O Edson era radioamador?
Era! Ele falava no nosso quarto, na cabeceira da cama. Eu gostava, e ficava
escutando.
O Edson era muito reservado?
Sempre foi. Só que tinha um espírito muito criativo e brincalhão.
Era muito quietinho. Ele era extremamente reservado com relação
a receber pessoas em casa., com exceção da família,
claro.
A senhora freqüentou o Cine Plaza, que existia junto ao Edifício
Luiz de Queiroz, mais conhecido como Comurba?
Freqüentava sim, era o melhor cinema que nós tínhamos.
Um detalhe interessante, a minha irmã, a Ivone ia casar e o meu
cunhado tinha um apartamento lá. Ela foi ver os detalhes finais,
de acabamento, no dia anterior a queda do prédio. Ela ficou doente
com o fato. Se o prédio tivesse desabado um dia antes provavelmente
ela estaria entre os que faleceram.
A senhora ainda solteira viajou por outros países?
Junto com meu Tio Jorge Vargas, Tia Mariquinha e um casal de primos. Viajamos
por três meses. Fomos para Os Estados Unidos, Portugal Espanha,
França, Suíça, Itália, Egito, Jordânia,
Jerusalém, Belém, Nazareth. A Jordânia estava em guerra,
víamos muitos soldados, um grande número de pessoas mutiladas
andando pelas ruas. Minha prima é dois ou três anos mais
velha do que eu. Ela estava namorando firme. Só que o namorado
dela não tinha o habito de escrever muito. Em cada hotel que eu
chegava já havia três ou quatro cartas do Edson para mim!
Ainda guardo as cartas que ele remeteu e as que eu escrevi.
Essa escultura da cabeça do Edson quem a fez?
Foi o artista plástico Dr. Jairo Ribeiro de Mattos, que a fez e
nos deu no nosso casamento. Eles trabalharam juntos na Casa da Lavoura.
O Jairo era engenheiro e o Edson desenhista. Nós casamos no ano
de 1963. A escultura é tão perfeita que até os óculos
do Edson se colocada nela para direitinho!
A senhora tinha algum contato com as revistas que o Edson colecionava?
Eu não gostava de revistas em quadrinhos. Minha irmã Ivone
uma vez pediu e ele emprestou, mas ela não gostava nem de mostrar
de medo que fizessem uma orelha na revista. Ele não admitia que
dobrasse as folhas da revista para ler a pagina. Tal era o seu zelo. Ele
era amigo do Seu Silas, dono do sebo mais antigo da cidade.
A senhora é devota de Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora Desatadora
dos Nós.
A senhora ia com o Edson em bailes de carnaval?
Um dos carnavais que marcou muito foi quando voltei da viagem ao Líbano
e trouxe trajes típicos para mim, para o Edson. E para mais três
primos. Ganhamos o prêmio, de melhor bloco, isso foi em 1962, foi
no Club Coronel Barbosa.
O que a senhora achava da participação do seu pai Comendador
Humberto D`Abronzo como Presidente do XV de Novembro de Piracicaba?
Acho que havia um grande interesse na participação do meu
pai, principalmente por ver na sua empresa a capacidade de investir recursos
no time.
A senhora torce por algum time?
Quando há jogo do Brasil, torço pelo Brasil. Meu neto diz
que eu torço roupa!
O Edson era quinzista?
Eu creio que sim. E corintiano também.
A senhora e seus irmãos tratavam seus pais de você
ou senhor e senhora?
Não! Imagine! Se os chamasse de você eles nos quebrariam
os dentes! Como a grande maioria dos pais da época o faria. Tínhamos
que tomar a benção, mesmo depois de casada. Meu pai fazia
questão. Eu tive uma infância maravilhosa. Brincava de carrinho
de rolimã, bolinha de gude. Empinava papagaio isso na Vila Rezende.
Nós morávamos em uma casinha tão linda, com terraço,
dois quartos, sala, cozinha e banheiro, e a dispensa. Eu dormia na sala,
porque não havia mais quartos. Quando ele comprou a primeira televisão,
vinha muitas pessoas para assistir, era pequeno o número de pessoas
que tinham televisão. Eu tinha que esperar todo mundo ir embora
para poder deitar. Eu não via a hora de ver o povo ir embora, porque
no dia seguinte tinha que levantar cedo para ir de bonde até o
Colégio Assunção.
O que levou o pai da senhora a mudar para o centro de Piracicaba?
O terreno em que situava a casa era necessário para ampliar a indústria.
A senhora praticava algum esporte?
Gostava de nadar. No Clube de Campo, o meu Tio Jorge amarrou uma corda
na minha cintura e me fez dar a volta nadando. Ele ia todo dia de madrugada
nadar no Clube de Campo, ele geralmente estava saindo quando eu chegava.
A primeira vez em que entrei na piscina, vi todo mundo pular e sair nadando
achei aquilo muito fácil. Quase morri!

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