RIO DAS PEDRAS , A CIDADE DOÇURA

Aspectos históricos

Para falar de Rio das Pedras os convidados da nossa entrevista são Luiz Carlos Bonassa, o Nenê Bonassa, e o Professor Antonio Sérgio Bortoleto.

Nada melhor do que convidar duas pessoas que já são parte integrante da sua história, viveram momentos memoráveis de muita criatividade, se relacionam com desenvoltura no cotidiano riopedrense.Vamos constatar a ligação estreita entre Piracicaba e Rio das Pedras, em uma perfeita harmonia, onde os desdobramentos históricos se entrelaçam.

Quantos anos tem a cidade de Rio das Pedras?

Nenê Bonassa- Rio das Pedras tem 110 anos de emancipação política, ou seja foi emancipada politicamente em 1894, quando passou a ter prefeitura, câmara de vereadores mas antes ela tinha sido Vila, tinha sido Freguesia, o território de Rio das Pedras pertencia a Piracicaba. Sua denominação era Senhor Bom Jesus de Rio das Pedras. Ontem, dia 6 de agosto, foi feriado municipal comemorando o dia do padroeiro da cidade, Bom Jesus.

Que história é essa de chamarem de Rio das Pêdras, feminino de Pedro(sic)?

Nenê Bonassa- Na realidade isso é uma lenda. Nunca foi comprovada, então não é um fato tido como verdadeiro.Trata-se de uma lenda popular, uma lenda urbana, que diz que antes de se tornar cidade, o local era uma pousada de tropeiros, o dono dessa pousada chamava-se Pedro, ele tinha três filhas muito bonitas, e como a pousada era ao lado de um rio, os tropeiros que se dirigiam de Piracicaba para Itu, costumavam fazer o seu pouso ali de descanso, boa aguada, bom descanso, ninguém conhecia o nome das meninas filhas do Pedro, eram denominadas de Pêdras, filhas do Pedro. Diziam então que era o pouso de Rio das Pêdras e com o tempo em uma forma mais usual passou a ser Rio das Pedras. Só que em Rio das Pedras não tem Rio! Dentro das características arquitetônicas da cidade não tem um rio e muito menos um rio com pedras!

Existem ribeirões na cidade?

Bortoleto- Essa lenda das filhas do Pedro acabou caindo na cultura popular, e hoje qualquer pessoa que você encontrar em Rio das Pedras vai contar essa história. Quando ainda era aluno do curso colegial, sob a orientação da Professora Marly Terezinha Germano Perecim, a quem cumprimento carinhosamente pelo trabalho efetivo que realizou em Rio das Pedras junto a escola Macone, também cumprimento o nosso professor de geografia, Renato. Trabalhando com essas duas magníficas pessoas, nós alunos do ensino médio, fizemos um trabalho significativo a respeito da verdadeira história de Rio das Pedras.O principal ribeirão que atravessa a cidade é o Ribeirão Tijuco Preto, que na linguagem indígena quer dizer barro preto. Nesse Ribeirão não existe pedras. Ficamos indignados com essa história. Onde estarão as pedras de Rio das Pedras? Fomos fazer um trabalho de investigação científica a respeito da verdadeira história de Rio das Pedras. Depois de pronto o trabalho ele não foi aceito pelos meios acadêmicos e pelo poder público de Rio das Pedras. Mas para nós que fizemos o trabalho foi o verdadeiro trabalho de Rio das Pedras.

Existe um ribeirão que atravessa também o município de Rio das Pedras e que nasce na vizinha cidade de Mombuca, é chamado Rio Lajeado, ele atravessa uma fazenda que pertence a Rio das Pedras, e que chama fazenda Lajeado, e nós estivemos lá, eu e o Luiz Carlos Bonassa e concluímos através das nossas pesquisas, que na Capela do Lajeado teria se iniciado a verdadeira história de Rio das Pedras. A professora Marly, o professor Renato, os alunos do terceiro ano do ensino médio, pesquisamos o leito do ribeirão que é coberto por uma laje, por isso chama Ribeirão Lajeado, nessas lajes existiam buracos provocados pela erosão feita pela água, nós encontramos colheres de tropeiros, moedas do tempo do Império, artefatos que os tropeiros usavam para fazer essa viagem de transporte do gado, onde Rio das Pedras era pouso. Documentamos isso, entrevistamos pessoas da região e a conclusão do trabalho dirigido pela professora Dra. Marly Therezinha Germano Perecim, o professor Renato e um trabalho efetivo de todos os alunos, concluímos que o nome Rio das Pedras realmente teve origem no Rio Lajeado que lá eram onde os tropeiros paravam para descanso. Essa documentação deve estar arquivada no Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, na época o poder público de Rio das Pedras não aceitou os resultados que apresentamos.

Sobre o Ribeirão Lambari o que pode-se dizer?

Bortoleto- Nós temos o Lambari de Cima, Lambari do Meio e o Lambari de Baixo. No Lambari de Baixo nós encontramos uma capela muito antiga, que nós participamos da restauração dessa capela. Tive o prazer de assentar tijolo, pintar a capela, restauramos a capela porque ela também determina um momento histórico de Rio das Pedras. Nós não temos conhecimento de que tenha sido no Lambari o surgimento de Rio das Pedras.

Além desse interesse pela história de Rio das Pedras, vocês também já atuaram em radio?

Nenê Bonassa- Nós fomos da vanguarda em muitas coisas que aconteceram em Rio das Pedras. É uma cidade pequena que nunca teve uma emissora de rádio. No dia 29 de julho de 1989, ou seja a 15 anos atrás existia aqui na Rádio Educadora de Piracicaba, um programa realizado aos sábados, chamado Fala Rio das Pedras. Nós dois apresentávamos o programa, juntos com alguns voluntários de Rio das Pedras que nos ajudavam a produzir meia hora semanal de programação, na época usávamos fita de rolo ainda. A gravação era feita em Rio das Pedras, no Suave Som, trazíamos a fita de rolo, e depois corríamos para Rio das Pedras para ficar ouvindo a programação. Íamos nos bares, sintonizávamos a rádio, pedíamos silêncio para que as pessoas pudessem ouvir que falávamos alguma coisa da cidade. Era um programa de diversidades. Tinha notícias políticas da região, da cidade, tinha entretenimento. Havia uma parte que era até engraçada. Como o programa era gravado, durante o programa nós sorteávamos pizzas, nós fazíamos de conta que era ao vivo, as pessoas telefonavam e nós ficávamos no telefone atendendo, só não tinha como dar o resultado do sorteio na hora, o programa já tinha sido gravado, então dizíamos: - No próximo sábado vocês saberão quem são os ganhadores das 5 pizzas sorteadas hoje! O programa tinha uma audiência bastante significativa, foi o primeiro programa de rádio de Rio das Pedras.

Nenê Bonassa- Depois de muito tempo tivemos a oportunidade de instalar em Rio das Pedras uma rádio comunitária. Existe muitas histórias para contar dessa rádio. Ela não prosperou porque perante a lei estava na ilegalidade, mas para nós foi uma boa experiência. Fizemos muita coisa para elevar o nome da cidade. Rio das Pedras  ainda que não se divulgue, foi um grande celeiro de idéias e de artistas. Tem muita gente boa em Rio das Pedras, mas cujo trabalho infelizmente não é divulgado.Um fato muito curioso, um fato artístico, em 1930 aconteceu um crime amoroso em Rio das Pedras, existiu uma família muito rica, com uma filha de chamada Gilda, Firmino, um garoto do povo, era apaixonado por Gilda, os pais dela eram contra esse namoro. Firmino assassinou Gilda. Os fato na época eram narrados, lá não tinha jornal, não tinha rádio, isso virou moda de viola.Virou uma música de 28 versos, e como na época não tinha CD, não existia os recursos eletrônicos de hoje, essa música não pode ser gravada. Não cabia no disco de vinil (bolachas). Essa moda de viola ficou gravada na cabeça de algumas pessoas, por coincidência conhecemos um dos filhos de alguém que sabia essa música, ele reproduziu algumas partes dela, ele também não lembrava da música toda. O músico que fez isso chama-se Estrepe, é um mecânico na nossa cidade. Ele tem parte dessa música registrada na memória. A história de Firmino e de Gilda. É uma inédita e desconhecida. Tenho um pedacinho dela aqui: Fui passear em Rio das Pedras/quando eu cheguei na estação/fui saber triste notícia/quem contou foi o tabelião/Que Firmino matou Gilda/filha de Emilio Rincão/  ... e ai segue, são 28 estrofes.

Você que é o compositor do Hino de Rio das Pedras?

Nenê Bonassa- Eu fiz a letra, Luéster Martins fez a música. Isso foi comemorativo ao centenário de Rio das Pedras. Foi um concurso que teve lá, nós apresentamos essa versão, e hoje é considerada extra-oficialmente o Hino de Rios das Pedras. Nós gravamos em fita cassete. A versão original diz o seguinte: Se outrora viajantes e tropeiros aqui faziam da jornada uma pousada/Se foi Pedro ou o riacho os hospedeiros/fez-se da lenda uma história hoje contada/se ali lindas moças eram Pêdras/era porque o pai,de Pedro era chamado/e o local ficou chamado Rio das Pêdras, pouso e descanso de tropeiros que passavam. Essa terra que ao produzir doçura vai transformando migrantes em irmãos/traz estampado em cada rosto a ternura/mostrando ao mundo o perfil de uma nação.

Bortoleto- Acho que é momento de se fazer justiça ao meu amigo Luiz Carlos Bonassa. Na época eu era o diretor do Departamento de Cultura de Rio das Pedras. Eu que promovi o concurso para a escolha do hino. O Luiz Carlos apresentou a letra e a música, foi selecionado como a melhor, foi julgado por algumas pessoas entendidas do assunto,e segundo essas pessoas, ela não foi aceita. Nós da Comissão de Cultura achávamos que tinha todas as características para ser o hino de Rio das Pedras, tanto letra como música. Para nós de Rio das Pedras esse deveria ser o Hino da cidade. Talvez um ou outro arranjo possa ter que ser feito, mas faça-se justiça, foi o melhor entre todos que foram apresentados.Foi aprovado por unanimidade por toda comissão. Rio das Pedras é uma das poucas cidades do Brasil que não tem seu hino.

Nenê Bonassa- O  ano de 1894 que foi o ano de emancipação política é um referencial de muitos em Rio das Pedras. Na realidade o desenvolvimento da cidade se deu com a chegada da estrada de ferro, em 1872. Até então era um grupo de casas. A Estação de Rio das Pedras foi criada antes da instalação da Estação de Piracicaba, a estrada de ferro passa primeiro lá antes de chegar a Piracicaba. Muito antes disso já existia a presença humana em Rio das Pedras. Há 12.000 anos atrás já tinha a presença humana em Rio das Pedras, isso já foi comprovado.Uma cultura indígena, que ainda tem hoje vestígios desse sitio, chamava-se tradição Umbu, índios nômades, eu e o Bortoleto chegamos a coletar alguns materiais nesse local.

Rio das Pedras teve artistas dos mais diferentes segmentos.Teve um artista chamado Tite Giovanini, ele era pintor. É o Picasso de Rio das Pedras. Os quadros dele com uma qualidade e uma técnica de fazer inveja a grandes nomes que estão por ai. Ele faleceu recentemente. Foi pouco conhecido. Pouco difundido. Ele não vendia seus quadros. Ele dava de presente. Algumas famílias de Rio das Pedras tem o privilégio de ter uma obra de Tite Giovanini. Outra figura importante é Roberto Tartaglia. Também faleceu a pouco tempo. Ele era tropeiro, violeiro e músico. Foi o primeiro artista a gravar um disco em Rio das Pedras. Ele tinha um conjunto chamado Trio Rio das Pedras.O seu primeiro disco chamou-se Disco Voador. Foi gravado em vinil. Depois ele lançou um segundo disco com músicas inéditas dele e de outras pessoas. Pouquíssimas pessoas tem esse material. O filho do Roberto Tartaglia é um dos maiores trompetistas do mundo.Viaja o mundo inteiro tocando trompete. O pai era violeiro e tropeiro. A musicalidade estava na veia. No sangue. Adoniram Barbosa gostava de Rio das Pedras. Ele tinha parentes em Rio das Pedras. A família  Rubinato. Com sua voz grossa dizia: -Eu gosto de vir para Rio das Pedras porque aqui ninguém me enche! Eu fico tranqüilo. Isso é fato relatado pela família.

Bortoleto- Mario Cavichioli foi um dos precursores da Banda de Rio das Pedras, morava na primeira rua que deu origem a Rio das Pedras, a Rua Rangel Pestana.

Nenê Bonassa- O Mario Cavichioli era de Mombuca e mudou-se para Rio das Pedras. Faleceu recentemente. Seu filho, Marito, também é pintor, escultor, poeta. A casa do Mario Cavichioli é um museu.

Bortoleto- Mario Cavichioli era o tipo da pessoa que fazia do nada o tudo. Ele andava pelas ruas de Rio das Pedras e quando encontrava um prego, um arame, ele levava tudo para casa dele e aquilo uma hora ou outra ia servir para alguma coisa. Ele transformava em algo. É uma pessoa que via nos detalhes um trabalho artístico. Fazia um trabalho artístico com isso.

Nenê Bonassa- O Domeneghetti, falecido há muito pouco tempo, ele trabalhava a madeira com uma perfeição que só ele sabia fazer. Usando ferramentas precárias, o acervo que ele deixou para Rio das Pedras eu com certeza desconheço algum artista que tenha feito da maneira que ele fazia e o que ele retratava.

Esse acervo está aonde?

Nenê Bonassa- Fui vereador por dois mandatos (Bonassa  é vereador em Rio das Pedras está no seu segundo mandato) hoje não sou mais candidato.Uma das grandes lutas minha dentro da Câmara Municipal é fazer em Rio das Pedras um museu. Eu e o professor Bortoleto começamos a coletar material, começamos a reunir alguns elementos, mas infelizmente nunca conseguimos fazer com que isso virasse realidade dentro da cidade de Rio das Pedras. Não existe um lugar em que se registre ou se guarde a história. Todo esse material está espalhado pela cidade. Sabemos que uma família tem isso, outra tem aquilo. Por exemplo Dorival Zandoná tem uma imagem em madeira que veio da Itália, de São José de Botas. Isso fica em uma igreja que fica num sítio, é a única igreja do Brasil que tem um portal com colunas, nenhuma outra tem um portal! A imagem estava lá dentro se perdendo.

Bortoleto- Essa imagem nós encontramos, eu e o Bonassa, por acaso. Nós estávamos fazendo o levantamento das capelas de Rio das Pedras e passamos pela capela da Lapa, e ao entramos na capela, uma capela completamente deteriorada, nós vimos essa imagem, uma das mãos foi restaurada em Piracicaba, um restauro muito mal feito. Essa imagem tem mais de 100 anos, estilo barroco, encontramos também no altar da capela um missal de 1889, a borda do missal era folhada a ouro. Chamamos o dono da propriedade e ele guardou isso ai. Tinha uma caixa de castiçais, o Bonassa limpou um dos castiçais, ele adquiriu um brilho intenso. Estava abandonado também lá. Quanto ao acervo do Domeneghetti os irmãos dele guardam esse acervo. 

Existe na região uma casa grande com senzala?

Nenê Bonassa- É a fazenda Bom Jardim, de propriedade do Barão de Serra Negra. Eu e o Bortoleto temos isso em vídeo. Há uns 15 ou 20 anos atrás nós conseguimos fazer uma gravação, fazer um pouco de história. Mas aos poucos ela está sendo destruída pelo tempo. Não tem uma manutenção, ela está dentro de uma propriedade particular, não houve o tombamento histórico, isso vai ruir.

Isso pode virar uma fonte de renda para o proprietário. Hoje é moda o turismo histórico.

Pode o pessoal usar como roteiro turístico.

Graças a Deus apareceu esse ano na cidade um grupo de jovens que está se formando na Unimep em Turismo e Hotelaria, são jovens de Rio das Pedras, eles formaram um grupo que se chama Grupo de Novas Idéias Turísticas. Eles estão fazendo todo um levantamento para que se possa aproveitar esses pontos como fonte de turismo, para que as pessoas possam gerar renda, gerar divisas, gerar conhecimento, gerar cultura, quem está coordenando isso é Sabrina Rivera.Uma profissional muito competente, entusiasmada, e está fazendo todo esse trabalho. Temos procurado ajudar com as informações que temos. Disse outro dia: Sabrina, Rio das Pedras tem uma fábrica intocada de 1890. Ela falou onde que é isso? E é verdade, tem mesmo, ela foi fechada e nunca mais foi aberta. Era uma fábrica de macarrão. Os maquinários estão todos lá. Está em um porão de um lugar. As pessoas não sabem disso.

Graças a Deus esse grupo de estudantes, acompanhando esse raciocínio que você acaba de colocar, o objetivo é fazer disso além de fonte de conhecimento uma fonte de renda. Isso gera renda. Isso é o que o povo está querendo. Além de você achar um barzinho, achar um lugar agradável, você tem um pouco de história, vai conhecer seu povo, conhecer as suas origens.

Bortoleto- Sem contar que nós temos em funcionamento uma fábrica de beneficiamento de arroz, do Gede, ela funciona com todas as máquinas na forma antiga .Uma preciosidade que está lá. O neto dele cuida daquilo, o Américo. É um processo muito bonito, e talvez Rio das Pedras desconheça. Fica na Rua Prudente de Moraes, perto do posto do Montagneir. No centro da cidade.

Nenê Bonassa- É um ponto histórico. É uma forma de moer o milho, transformar em fubá da maneira mais antiga que se conhece. Aquelas pedras. É digna de ser vista, de ver como funcionava. Com respeito a Senzala, na Fazenda Montebelo havia a casa grande, a senzala, e uma biblioteca riquíssima. Infelizmente os proprietários colocaram tudo isso abaixo. Nós tentamos resgatar os livros mas não conseguimos. Foram-se a casa, a senzala e os livros.

Rio das Pedras tem uma rua que se chama Rua Torta. Ela é Rua Rangel Pestana.

Ela é torta porque acompanha a curva do leito do Ribeirão Tijuco Preto. Mas a calçada dela também é toda irregular. Um lado da calçada é fino, depois ele engrossa, depois ele afina, por que ele é daquele jeito? Era para estacionar carroças. Com ela era uma rua fina, uma carroça impedia a passagem de outras carroças. Essa era a Rua do Comércio. A principal rua de Rio das Pedras. Ela era conhecida como rua de baixo. A rua paralela a ela, um pouco acima, era conhecida como Rua de Cima, ou Rua das Cabras. Hoje é a Rua Dr.João Tobias. E mais acima ainda, paralela a ela, tinha a Rua da Raia, que era onde se fazia corrida de cavalo. Hoje Avenida Adhemar de Barros. Se você chegar a Rio das Pedras e perguntar onde fica a Rua Rangel Pestana ninguém sabe onde fica. Ali tinha a estação, que era o maior patrimônio histórico de Rio das Pedras. E que foi derrubada. Aleatoriamente alguém achou que devia derrubar, foi lá derrubou, manteve só um barracão no local. Eu tinha aquilo na minha memória. Sabia detalhe por detalhe como era o prédio da estação. Alguns anos atrás teve um desfile, eu disse vou fazer uma maquete, gosto de fazer maquete. Não existe fotos da estação por inteiro, existe fragmentos de fotos. Eu fiz uma maquete, achei que ia ficar pequenininha, saiu uma maquete de 3 metros, ficou perfeita, eu coloquei até o relógio e os bancos na maquete da estação. Tive que colocar uma roda para puxa-la durante o desfile. Quase enfartei. Os mais antigos quando viam paravam o desfile queriam ver, choravam, diziam: Isso era a minha infância! Por incrível que pareça, eu tive que desmanchar a maquete, por que Rio das Pedras não tinha nenhum lugar que pudesse guardar a maquete depois de pronta. Eu só tenho isso em fotografia.

Bortoleto- Essa Rua das Cabras que o Bonassa falou vai dar acesso a um bairro que chama Bairro Coréia. Ninguém sabe por que se atribuiu o nome Coréia. Em virtude da guerra fria?

O primeiro fato bélico da Guerra Fria foi a Guerra da Coréia.O bairro passou a se chamar Coréia. Por que esse bairro se chamou Coréia? Eu tentei pesquisar, o Bonassa também tentou, nós sabemos que foi por causa da Guerra da Coréia.

Nassif- Piracicaba tinha o bairro da Coréia, ao que consta, em informação não documentada, é que em função dos atritos que existiam nesse bairro, foi jocosamente comparado a Guerra da Coréia, talvez haja uma similaridade. Essa informação verbal foi fornecida pelo Dr. Geraldo Lopes Vieira, que na época do fato era o delegado titular de Piracicaba, década 1950.

Bonassa- O único clube que está dentro da cidade se chama Sociedade Cultural Riopedrense.O antigo nome era Sociedade Beneficente Pátria e Lavoro. Foi obrigado a mudar o nome por força de lei na época da Segunda Guerra Mundial.

Bonassa e Bortoleto, como foi a história do circo mambembe?

Bortoleto-O circo mambembe foi muito interessante. Chamava-se Bortoleto e Bonassa Diversões. Eu fiz um curso de mágicas, trabalhei até como mágico, palhaço, animando festividades.Um dia disse ao Bonassa: - Bonassa, vamos ganhar dinheiro! Nós sempre procuramos forma de ganhar dinheiro. Eu disse: - Tem uma coisa que eu vi em Aparecida do Norte, vi na Praia Grande, aquela metamorfose da mulher que se transforma em gorila. Eu não sei fazer. Mas nós vamos procurar informações. Fomos e conseguimos com o Dr.Khiel ,um professor da Escola de Agricultura Luiz de Queiroz. Ele passou através de um amigo dele o esquema de como montar isso. Ai fomos para Campinas, para resumir, compramos uma carreta, um baú de 12 metros, e montamos esse circo dentro do baú. Ou seja a transformação ocorria dentro do baú. Entravam 30 pessoas de cada vez, nós tínhamos uma menina que trabalhava conosco, hoje ela é minha nora, o Bonassa fazia toda coordenação, direção de palco, produção. Eu fazia a narração. Através de uma ilusão de ótica, espelho e luz, essa menina na frente de 30 a 40 pessoas, ia se transformando em um gorila, e de repente o gorila escapava e dava aquele impacto, todo mundo saia correndo. Nós rodamos com esse circo por toda a região. Fomos até Araraquara, Pirassununga, Araras.

Quem se vestia de gorila?

Nós tínhamos 4 gorilas, um deles era o Luiz Carlos Bonassa. Foi um período muito bom da nossa vida. Trabalhava a minha família, a família do Bonassa, todos nós éramos artistas. Depois essa carreta vai servir para abrigar a rádio comunitária que nós tínhamos. Nós tínhamos o baú, mas não tínhamos o caminhão para puxar o baú. E tava ficando caro.Tínhamos que manter 8 pessoas, quando viajava era hotel, alimentação. Essa carreta tem fatos marcantes.

Bonassa- Depois ela virou uma rádio comunitária. Nós colocamos uma rádio comunitária, também tudo precário.Tentando, achando que sabia fazer, começou a interferir na cidade inteira. Nós tiramos a rádio de dentro da cidade, levamos ela num sítio. E levamos dentro dessa carreta. Ai ela ficou bem comunitária! Depois de algum tempo achamos um lugar na cidade e voltamos para a cidade. Ela acabou sendo desativada. Mas foi uma grande experiência.

Bortoleto- A nossa rádio era tão boa que não pegava no Clube de Campo de Rio das Pedras, mas ela pegava em Torrinha e em Santa Maria da Serra!