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PROGRAMA PIRACICABA HISTÓRIAS E MEMÓRIAS
APRESENTAÇÃO JOÃO UMBERTO NASSIF
14 DE AGOSTO DE 2004
ENTREVISTADOS BENI GALTER E NELSON LOURENÇO
Aspectos locais de Santa Bárbara D´Oeste, que cresce como cidade mas não perde sua identidade. Um pouco da essência do romantismo do seresteiro, a força com que a alma coletiva permanece na lembrança da sua gente. A imagem congelada através do tempo sem perder o calor e a vibração que motiva centenas de pessoas a se reunirem em uma praça para entoar um hino de louvor aos bons tempos, a mulher amada, a saudades de alguém ou de alguma coisa. Parece incrível mas isso existe e acontece. É o momento do relaxamento, do abastecimento de energias para novas empreitadas.Ou simplesmente por puro devaneio sadio e irreverente. Santa Bárbara D´Oeste tem em Beni Galter um dos grandes valores musicais e a música brasileira tem em Beni Galter um verdadeiro missionário.
Beni Galter
você nasceu em Santa Bárbara D´Oeste?
Acidentalmente eu nasci em São Paulo, isso porque os meus pais eram de Americana. Por ocasião da Segunda Guerra o meu pai ficou desempregado, ele era mecânico do ramo têxtil, ele casou-se e mudou-se para São Paulo em função do emprego que ele conseguiu lá. O meu pai nasceu em Araras, a minha mãe em Limeira. Galter é de origem austríaca. Meu avo era austríaco. A minha avó era italiana. Isso pelo lado paterno. Do lado materno são espanhóis, família Molina. O meu gen musical deve ser da Áustria, mas os espanhóis gostam muito de música, é um povo muito alegre, embora seja meio guerreiro por temperamento. È um povo que acredita e luta pelo que acredita.
Você é casado?
Sou casado, muito bem casado, aliás uma das grandes dádivas que Deus me deu é a esposa que eu tenho e quatro filhos maravilhosos.
Sua atividade principal qual é?
Eu tenho uma pequena indústria de etiquetas tecidas para vestuário.
Quando você descobriu que
gostava de música?
Logo após nascer e começar a crescer.
(Nelson Lourenço, violonista que acompanha Beni Galter diz que ao receber o tradicional tapinha por ocasião do seu nascimento, Beni Galter não chorou...cantou!!!!)
Nelson Lourenço é natural de Araras, por volta de 1992 mudou-se para Santa Bárbara D´Oeste, a música acabou aproximando-o de Beni Galter. É metalúrgico, trabalha nas Indústrias Nardini em Americana. Toca violão desde os 10 anos de idade.
Beni Galter você toca algum instrumento?
Nunca toquei instrumento nenhum. O que a minha mãe conta e eu não me lembro bem, é que os meus tios gostavam muito de música. Alguns tocavam violão. Gostavam de cantar. Eram mais instrumentistas do que cantores. Eu desde pequenininho gostava de cantar. Eles me colocavam atrás de uma porta, entreabriam a porta, eu pequenininho, com 3 anos de idade, eu ficava atrás da porta, desde o começo o meu negócio foi rádio, som e não imagem...então, eu atrás da porta cantava, se me tirassem detrás da porta, se eu tivesse que encarar o publico eu caia fora. Eu era tímido. O tempo faz coisas que até Deus dúvida...
Na sua opinião quem é o
melhor músico do Brasil?
É difícil falar, porque o Brasil é um país muito rico musicalmente falando. Nós temos por volta de 36 a 38 ritmos musicais diferentes.Você não encontra nenhum país com a riqueza musical que nós temos. Por isso procuro sempre falar da música brasileira, tocar música brasileira, porque é uma música riquíssima, respeitada pelos outros povos mas não tão bem respeitada como deveria pelo nosso povo, pelo menos por uma parte do povo.
Para falar um pouco da história de Santa Bárbara D´Oeste podemos iniciar perguntando quem foi Dona Margarida?
Dona Margarida da Graça Martins, viúva do sargento-mor Francisco de Paula Martins, por volta de 1817 adquiriu uma sesmaria, e saindo de Santos para cá se dirigiu com seus filhos, parentes e escravos. Ela doou terras para que fosse construída uma capela em louvor a Santa Bárbara que foi erguida em 1818, ano da fundação de Santa Bárbara. Com o passar do tempo se formou uma vila ao redor da capela, aos poucos se tornou uma pequena cidade. Hoje temos cerca de 180.000 habitantes.
O nome Santa Bárbara D´Oeste é para diferenciar de outras cidades que levam o nome de Santa Bárbara como por exemplo Santa Bárbara do Sul, Santa Bárbara de Goiás, Santa Bárbara do Rio Pardo, Santa Bárbara que fica a 112 quilômetros de Belo Horizonte.
A imigração americana está
presente em Santa Bárbara?
Existe um ponto turístico que as forças vivas da cidade se mobilizam no sentido de explorar o turismo de forma mais apropriada. Nós temos um cemitério típico norte-americano. Na ocasião da imigração dos norte-americanos para o Brasil com o término da Guerra da Secessão vieram inúmeras famílias para Santa Bárbara que acabaram criando a cidade de Americana. O nome Americana era inicialmente denominada Vila Americana. Era uma vila de americanos que se formou em torno de uma estação ferroviária de Santa Bárbara D´Oeste. Os norte-americanos vieram com uma mentalidade mais arejada. Mais avançada.O primeiro arado nacional foi construído em Santa Bárbara pelos norte-americanos.Quando os primeiros norte-americanos começaram a falecer, os mais antigos, houve um problema com o pessoal da Vila Santa Bárbara que era totalmente católico. Um dos padres daquela época criou uma certa dificuldade e os americanos foram forçados a criar um cemitério para enterrar as pessoas de origem norte-americana, que eram presbiterianos. Não eram aceitas no cemitério católico. Hoje naturalmente a mentalidade é outra. Até se lamenta que tenha ocorrido isso. Mas em conseqüência desse acidente nós temos um cemitério que ninguém tem! Com suas características, com sua capela, tudo dentro dos padrões norte-americano.O Jimmy Carter já esteve em Santa Bárbara D´Oeste visitando esse cemitério.O Cemitério do Campo ou Cemitério dos Americanos é um pólo de atração turística, que se devidamente explorado poderia trazer muitos recursos, não só para Santa Bárbara, mas para toda a região. A Sociedade de Descendência Norte-Americana realiza encontros periódicos nesse cemitério. São pessoas do Brasil todo que se locomovem para Santa Bárbara para se reunirem em festividades de caráter norte-americano.
O fundador da Colônia Confederada foi o Coronel William Hutchinson Norris, nascido em Oglethorpe, Geórgia. Ele mudou-se para o Alabama, foi senador pelo Texas, era advogado.
Ao término da Guerra da Secessão
o Coronel Norris reuniu a sua família e rumou para o Brasil. O Imperador
D.PedroII recepcionou os sulistas pessoalmente, graças aos contatos que o
Coronel Norris tinha na Maçonaria e ao interesse que o Brasil tinha nas técnicas
agrícolas refinadas que os sulistas traziam, particularmente no cultivo de
algodão. Os imigrantes adquiriram terras no Estado de São Paulo a 22 centavos
de dólar por acre (um acre tem cerca de 4047metros quadrados, apenas para
efeito comparativo um quarteirão em nossas cidades medem 100 metros de
comprimento, totalizando o quarteirão todo 10.000 metros quadrados). O cemitério
começou com o sepultamento de Beatrice Oliver, esposa do Coronel Oliver em
1867. Existe uma inscrição em uma das lápides:
Soldado descansa! Tua luta acabou. Dorme o sono eterno, onde não há dias de fadiga,ou noites de vigília.
Você além de cantar muito bem, conhece e explica a história de cada música, sua origem, razão por que foi composta e quem ou o que serviu de inspiração.
Conheço razoavelmente. Ninguém conhece totalmente a história que dá origem a uma música. Eu gosto de pesquisar e então me dedico um pouco mais talvez. Eu tenho dois programas de rádio semanais, gravados durante a semana que os antecede. Um na Rádio Luzes da Ribalta, programa que se chama Compromisso com a saudade, são 3 horas de programa aos domingos das 6 às 9 da manhã. E aqui em Piracicaba, na Rádio Educativa FM também mais 3 horas aos domingos das 8 às 11 horas da manhã, programa que se chama Pelos caminhos da saudade, é uma herança de uma responsabilidade muito séria que nos foi outorgada pelo grande historiador, advogado, contabilista que foi Manoel Lopes Alarcon que apresentou esse programa durante 23 anos. No último dia 3 de agosto comemoramos o primeiro ano que esse programa tem a nossa cooperação. Eu e o Fábio Monteiro apresentamos o programa pela Educativa FM.
Também presente nos estúdios da Rádio Educadora de Piracicaba, o radialista Nadir Roberto, que acabara de apresentar o seu programa que foi ao ar das 9 às 10 horas, ou seja nos antecedeu,e diz que não se esquece de Manoel Lopes Alarcon.
Beni, você está trazendo uma caravana de cerca de 180 pessoas para um seresta em Piracicaba?
Veja como é a magia da música. É uma coisa que nos leva a viajar na memória. Eu tenho comentado nos meus programas de rádio em Santa Bárbara das serestas que se faz aqui em Piracicaba, eu acho que é uma das poucas, senão a única do Brasil com essa envergadura. Uma vez por mês, na sexta feira, você vê 1500 a 2000 pessoas no Largo dos Pescadores. Já faz 3 anos e meio que eu participo. E comento isso lá em Santa Bárbara. Recentemente alguém me ligou e disse: Você fala e a gente fica com vontade de ir. Nós podemos freqüentar a seresta? Eu respondo que sim, porque é público. Disso nasceu a idéia de trazermos em um ônibus os possíveis interessados em vir para Piracicaba. A repercussão foi tão grande que eu tenho 180 pessoas que estarão vindo para cá no próximo dia 20 de agosto. São 3 ônibus e carros particulares.
O que é Clube das Avencas?
Eu não tenho conhecimento de que exista em outro lugar senão em Santa Bárbara. Pode até existir, mas não é do nosso conhecimento. É voz corrente lá na cidade, de que é um clube criado, com origem em Santa Bárbara D´Oeste. Por que Clube das Avencas? Duas condições básicas para ser admitido, para pertencer a esse clube que se reúne no Centro do Professorado lá em Santa Bárbara D´Oeste. Primeira condição: tem que ser professora ou professor. A segunda condição: tem que ser aposentado. Por isso se chamam avencas. Eles entendem que o professor aposentado ou professora aposentada vive na sombra como a avenca daí se originou o nome. É um grupo muito alegre, estarão aqui conosco no dia 20 de agosto, no Largo dos Pescadores. Vão se apresentar. Eles cantam. São muito inteligentes, tem muito bom gosto. É um pessoal muito culto, é muito gostoso tratar com eles.
O que é o Clube do João em
Santa Bárbara D´Oeste?
O Clube do João segundo dizem é originário de lá. Para pertencer ao clube tem que ter o João no nome. Pode ser João José, João Geraldo, mas tem que constar o João. Você pode levar o Joãozinho. Eles fazem uma reunião anual. Já fui uma vez para cantar na festa deles. O José João Belani é dos organizadores. São bem organizados, com diretoria e tudo!
Nadir Roberto conta que foi
telegrafista em Santa Bárbara D´Oeste em 1950, e que Emilio Romi é natural de
São José do Rio Pardo. Ele foi para a Itália, participou da Guerra, ficou
muito ferido, e a enfermeira mais dedicada acabou se casando com ele. Nadir
ainda diz se lembrar de Juscelino Kubitschek andando de Romiseta.
Beni Galter apresenta mais uma música, acompanhado de Nelson Lourenço ao violão.
Você se apresenta em shows
particulares?
Eu gosto de cantar e faço apresentações por ai sempre que convidado e sempre que possível há mais de 20 anos. Nunca cobrei um tostão. Nunca. Vou cantar em instituições de caridade, pela beleza da música, ela me faz bem a saúde! Eu acho que deve fazer bem a muita gente, a música brasileira autentica que a gente tenta manter de alguma maneira atual.
Você chegou a andar de Romiseta?
Cheguei sim. Inclusive eu trabalhava nas Indústrias Romi na época do lançamento da Romiseta. Foi na década de 50. Ela tem um formato anatômico e ela é feita de tal maneira que teoricamente, era o que diziam, ela só ficaria na posição em que as 4 rodas estivessem no chão, de outra forma ela rolaria até chegar a essa posição. Ela parecia um ovo realmente. A única porta abria para frente, deslocando o volante junto. A Romi fez uma fusão com a Isetta italiana. A família Romi tem muito vínculo com a Itália. Inclusive a Dona Pia, esposa do Comendador Américo Emilio Romi era italiana, como o Nadir Roberto comentou. O Comendador se feriu quando combatia na Primeira Grande Guerra. Ele caiu de uma motocicleta. Ele era mensageiro, estava levando uma mensagem de uma cidade a outra e com uma certa pressa, com cuidado em decorrência da situação em, que se vivia, capotou com a moto, se feriu, ficou hospitalizado. Nesse hospital conheceu Dona Pia, que era enfermeira, casada, já tinha um filho, o Sr.Carlos Chiti, ainda vivo e bastante lúcido Graças a Deus.O Comendador se casou com Dona Pia (Olímpia Gelli) e vieram para o Brasil. Os demais filhos nasceram aqui. São brasileiros. Ele começou com uma oficina mecânica, de manutenção de automóvel que era a especialidade dele. Ele era muito empreendedor, tinha aquela característica do imigrante que vem para a América .Tive o privilégio de falar com ele por duas ou três vezes. Eu tinha 18 anos quando fui trabalhar na Romi. Isso foi em 1958. Santa Bárbara deve ao Comendador Américo Emilio Romi muita coisa. A Romiseta é o primeiro carro brasileiro. Ele criou o primeiro trator brasileiro! Esse trator se chamava TORO, que por circunstancias que desconheço não foram fabricados em série.
Quem são os limparianos?
Limparianos é um clube originário lá de Santa Bárbara D´Oeste. É um clube constituído, tem diretoria que se renova a cada dois anos, tem estatuto, embora eu não faça parte do clube vou de vez em quando para os jantares.O nome Limpariano tem sua origem por que o pessoal gosta muito de comer e come tudo que sobra nas travessas, são pessoas que LIMPAM os pratos! Daí originou-se o nome LIMPARIANO! É um clube que se reúne para uma confraternização mas com uma mesa farta.Os primeiros limparianos começaram a se encontrarem toda quarta-feira num determinado restaurante, primeiro foram dois amigos,depois três, de repente tinha meia dúzia, logo tinha dez ou doze, ai começaram a pensar na possibilidade de criar um local para isso. Depois de conseguirem o local esse número de pessoas foi para 30, 40 membros, se viram na contingência de criarem regras, diretoria, alguém que determinasse onde seriam os eventos, promoções, e começaram a arrecadar dinheiro com o objetivo de ajudar as instituições. É o que eles fazem até hoje. Acaba sendo um clube de serviços.
Contato com João Umberto Nassif : joão.nassif@ig.com.br
Fonte:Fundação Romi.