Produção e Apresentação Jornalista e Radialista JOÃO UMBERTO NASSIF
Transmitido pela RÁDIO EDUCADORA DE PIRACICABA AM 1060 KHERTZ
Aos sábados das 10:00 às 11:00 horas da manhã.
Contato com João Umberto Nassif e-mail: joao.nassif@ig.com.br
Anésio de Souza guarda na memória lembranças de uma época em que andar de bonde era uma das formas mais usadas para a locomoção na cidade de Piracicaba. Um delicioso passeio pela cidade embalados nas reminiscências desse cobrador de bonde, a nostalgia e o bucolismo de um passado que muitos ainda lembram em suas doces recordações.
A entrevista que apresentamos hoje, foi realizada ao vivo nos estúdios da Rádio Educadora de Piracicaba, no dia 02 de março de 2002. Estivemos em sua residência no dia 27 de dezembro de 2004, para realizarmos algumas fotografias, Anésio com seu bom humor habitual nos recebeu com uma paciência quase infinita, inclusive quando pedimos para colocar as cédulas entre os dedos conforme fez por anos a fio no desempenho da sua profissão de cobrador de bonde.
A população mesmo antes da inauguração temia o bonde elétrico. O povo temia a velocidade do bonde. O povo temia ser eletrocutado dentro do veículo. O povo temia atravessar a rua ou pisar nos trilhos, ficar grudado e morrer eletrocutado. O povo tinha medo de ser atropelado pelo bonde. Vamos conhecer os fundamentos desses temores. O primeiro bonde elétrico surgiu na feira de Berlim em 1879. Esse bonde funcionava com 150 volts de corrente continua e a alimentação vinha pelos trilhos. Em 1883 foi criada uma linha turística próxima a Londres. Os bondes funcionavam com 460 volts de corrente contínua, a energia elétrica também vinha pelos trilhos. É fácil imaginar quantos incautos tomaram violentos choques elétricos pisando nos trilhos, principalmente nos dias de chuva. Podemos imaginar os choques elétricos que pessoas tomaram ao descer ou subir ou simplesmente encostando a mão no bonde em movimento. Os primeiros bondes não tinham freios. Isso chegando ao Brasil narrado pelos viajantes, crônicas ou pela imprensa estrangeira espalhou pelo povo um medo terrível pelo bonde. Foi duro convencer que o bonde não dava choque. Em 4 de novembro de 1929, uma ensolarada tarde de domingo, o bonde da Vila Maria, em São Paulo, segue pela Rua Catumbi, em direção ao seu destino, ao completar uma curva, o motorneiro quase não acredita no que vê: Um elefante que havia escapado de um circo caminhava no meio dos trilhos em direção ao bonde. Para assustar o paquiderme o motorneiro começa a tocar a campainha do bonde, e acelera o veículo para assustar o elefante. O elefante comprou a briga, e correu para cima do bonde dando-lhe uma tremenda de uma cabeçada! Resultado do impacto: o paquiderme de nome Eli foi a nocaute, permanecendo desacordado por quase duas horas. O bonde capotou e empenou totalmente a plataforma e deste dia em diante uma colisão entre veículos passou a ser conhecida por trombada! A origem do nome trombada é da trombada da tromba do elefante que bateu em um bonde em São Paulo. Isso foi em 1929.
Anésio de Souza foi contratado pela Prefeitura de Piracicaba e tem registrado em sua carteira profissional o dia 16 de março de 1959 como data de início no cargo de condutor de bonde com o salário de CR$ 22,50 (vinte e dois cruzeiros e cinqüenta centavos) por hora. Desempenhando a função de cobrador de bonde, o fato de estar registrado na carteira profissional como condutor é porque ele era o responsável pelas pessoas que subiam e desciam do bonde.
Nasceu em Piracicaba em 9 de maio de 1935, no bairro rural de Passa Cinco, filho de José de Souza Filho e Noemia Saciloto.
O senhor permaneceu até que ano trabalhando no bonde?
Permaneci até 1970 cobrando o bonde. Trabalhei nas três linhas que existiam em Piracicaba. A linha da Paulista saía da Avenida Dr. Paulo de Moraes, descia a Rua Boa Morte e ia até a esquina da Rua XV de Novembro com a Rua Boa Morte. A linha Agronomia saia da Rua XV de Novembro, atrás da Catedral, onde é hoje o Abriguinho, ia pela Rua José Pinto de Almeida, Rua São João até chegar na Escola de Agronomia. A linha Vila Rezende saia também quase da esquina da Rua XV de Novembro, seguia pela Rua Moraes Barros, entrava na Rua Alferes José Caetano, seguia pela Rua do Rosário até a Rua Campos Salles, atravessava a Ponte sobre o Rio Piracicaba, seguia pela Avenida Rui Barbosa e ia até a Estação de Trem da Vila Rezende. Os irmãos Augusto Colassanti, Alexandre Colassanti, José Calderam, Julio Gomes da Cruz, Onofre Gabriel de Souza, Jorge Bortoleto, Natálio Bertazoni foram alguns dos colegas de trabalho por muito tempo. Para ser motorneiro de bonde tinha que ter uma carta emitida pelo departamento de trânsito do município. Quando eu comecei a trabalhar a garagem dos bondes já era na Avenida Dr. Paulo de Moraes. Antes era no centro, na Rua Moraes Barros, onde era a antiga Companhia de Força e Luz. O bonde, da Rua Boa Morte, passava pelas casas comerciais como Padaria Central, Farmácia Neves, Del Nero que engarrafava a famosa Caninha 21, passava pela Padaria Jacareí, Padaria Cruzeiro que era do Guido Sachs e seu pai Berto Sachs, os Irmãos Filletti , a Fábrica de Vassouras Canta Galo. Eu me lembro de um dia em que eu estava fazendo a linha e trouxeram da roça a palha para fazer vassouras, no meio veio uma cascavel. No meio da Avenida Dr. Paulo existia um bebedouro de água para cavalos. O bonde passava encostado, 1 metro ou 1 metro e meio longe. Tinha ali o bar do pai do Walter Naime, o Sr. Latife Naime. A esquerda tinha o João Elias.
A que horas encerrava o trajeto do bonde?
O da Vila e o da Agronomia encerrava 23:50 horas. Esperávamos acabar a sessão do cinema para irmos embora. Fazíamos isso por nossa conta. Saia com um pequeno atraso para poder levar o pessoal que saia do cinema, principalmente do Broadway. O bonde nessa viagem ia lotado. Eu tinha que fazer a cobrança das passagens, andando pelo estribo do bonde, quando tinha algum passageiro em pé, no estribo, eu tinha que passar por detrás dele. Mesmo quando tinha duas ou três pessoas tinha que passar! Encaixava o pé e ia passando.
Após ter parado em um ponto para seguir o trajeto era o senhor que avisava o motorneiro?
Isso mesmo. Eu puxava uma cordinha por 3 vezes, ela batia em uma campainha. Ai o bonde seguia. Para parar rápido o bonde, principalmente em função de algum passageiro que completava a subida ou descida do bonde, eu dava uma puxada só na campainha. Era uma puxada bem forte. O motorneiro já desligava a máquina e freava.
Uma particularidade que chamava muito a atenção era como o cobrador do bonde levava as cédulas de dinheiro.
Levava no vão do dedo, em ordem crescente de valores, para facilitar mais para a gente. Eu costumava mais colocar o dinheiro no bolso, e segurar o troco na palma da mão.
Quantos bondes existiam em Piracicaba?
No meu começo eram 5. Depois compraram mais um em Campinas ficaram sendo 6. Eles tinham número de 1 a 6.
Como era o uniforme de quem trabalhava no bonde?
Era uma farda amarela. Cáqui para ser mais exato. Tinha um quepe com uma chapinha na frente onde tinha um número, esse número era a identificação do condutor do bonde.
Era difícil cobrar a passagem dos estudantes?
Na minha época não foi difícil. Eles já estavam bem mais comportados. Soube que antes tinham dado trabalho aos cobradores de bonde. Tinha um estudante peruano que excedia na bebida, vinha aos sábados para a cidade (centro de Piracicaba) e só voltava a sua casa domingo pela manhã, sempre embriagado, deitava no assento do banco, mas com calma a gente fazia ele ficar sentado.
À partir de que horas que os bondes começavam a correr em Piracicaba?
À partir das 5:25 horas da manhã os bondes da Vila Rezende e o da Agronomia começavam a funcionar. O da Paulista começava as 5:35 horas. O bonde da Agronomia era usado pelos funcionários da escola que iam trabalhar. Os estudantes usavam o bonde das 7:40hs.
O ouvinte Antonio Borges Moura morador no bairro Novo Horizonte, por telefone, pergunta a Anésio se algum dia ele foi assaltado?
Nunca fui assaltado. Nós chegávamos na garagem do bonde por volta de 23:50 horas, nós acertávamos as contas pelo relatório e colocávamos em um saquinho de lona o dinheiro das passagens e depositávamos em um cofre que existia na garagem. Esse acerto poderia ser feito na manhã do dia seguinte até às 9:00 horas. O conferente aceitava. Se chegássemos muito cansados podíamos ir para casa. Levávamos o dinheiro para casa, éramos responsáveis pelo mesmo. Sempre saiamos da garagem em 3 ou 4 pessoas, geralmente o fiscal, motorneiro, cobrador, quando eram dois bondes saiamos até em 8 pessoas.
Troco era um problema para o cobrador?
Troco era difícil. Comecei a cobrar quando a passagem custava CR$ 2,00. Depois passou a CR$ 3,00, era difícil conseguir troco. Quando passou a custar CR$ 5,00 já ficou fácil cobrar. Quando passou a custar R$ 7,00 também era difícil conseguir troco. Andaram fazendo um vale para ser dado de troco.
Quantas pessoas o senhor cobrava por dia?
No primeiro ano em que fui cobrador teve um dia em que cobrei 1.200 passagens. Os bolsos ficavam cheios de dinheiro. Geralmente a gente ia soltando, tinha o Bar Santa Terezinha onde a gente trocava os miúdos por notas maiores, na esquina onde era o Bar do Buriol também trocávamos dinheiro.
Nesse instante a ouvinte Isaura telefona do bairro da Paulista, afirma que andava de bonde desde 1947, na época eu tinha 17 anos, eu ia de bonde levar o almoço para uma pessoa da família que trabalhava na Metalúrgica Dedini, pagava duas passagens, uma até o Centro e outra até a Vila Rezende. Na época quando os bancos estavam cheios de passageiros os homens cediam o lugar para as mulheres sentarem. Naquele tempo era maravilhoso. Podia sentar com roupa limpa no bonde que não sujava a roupa. Naquela época não tinha televisão, o bonde tinha muitos cartazes de propagandas de muitos produtos, o cigarro Macedônia era um dos produtos anunciados, Xarope Bromil, Regulador Xavier, Tônico Iracema para quedas de cabelo.
O bonde passou a ser administrado pela Prefeitura Municipal a partir de que ano?
À partir de 1950. Fizemos uma greve no tempo em que o prefeito era o Sr. Alberto Coury. Ficamos um dia parado, de greve. No dia seguinte voltamos a trabalhar. Essa greve foi por falta de pagamento dos salários.
O senhor teve problemas com passageiros que batiam a cabeça em árvores, postes?
Além dos passageiros que iam sentados, viajavam em pé, no estribo do bonde outros passageiros, iam segurando no balaústre do bonde, alguns distraídos ou por gosto pelo perigo, ficavam com o corpo dependurado de forma sujeita a acidentes com postes, árvores e outros obstáculos existentes próximos ao local onde o bonde passava. Chegavam a cair depois da pancada. Parávamos o bonde e íamos socorrer a pessoa. Era a obrigação do motorneiro parar o bonde e o cobrador tinha que ir lá socorrer.
Nesse instante o ouvinte Dorival D’Avanzzo da Vila Rezende participa pelo telefone.
E faz a pergunta: Anésio, você se lembra do tempo em que os estudantes colocavam sabão na linha do bonde? E quando o Julio Gomes tombou o bonde?
No meu tempo os estudantes faziam isso mesmo. Na Vila Rezende tinha também alguns jovens que faziam isso. O filho do dono da farmácia e o filho de um funcionário que trabalhava no Dedini, eles colocavam sabão na linha. O bonde tinha uma caixinha com areia, o motorneiro ia pisando em um pedal e soltando a areia. É do meu tempo também quando Julio Gomes tombou o bonde. Eu estava trabalhando naquele horário, só que para a Vila Rezende corria dois bondes, eu estava no outro bonde. Felizmente não machucou ninguém. Uma vez colocaram palitos de fósforos na linha do bonde que ia para a Vila Rezende, ali na curva da Rua Moraes Barros, quando a roda passou sobre os palitos de fósforos deu aquele estouro, o povo que tinha ido ao cinema saiu correndo, acharam que ia cair algum prédio como aconteceu com o Comurba.
Criança pagava bonde?
Acima de cinco anos de idade, se estivesse sentado pagava. Sentou no bonde tinha que pagar. Nós tínhamos a obrigação de cobrar a passagem. Mala também, acima de 50 centímetros nós cobrávamos. Se a pessoa chegava de viagem na Estação da Paulista e tomasse o bonde com cinco malas iria pagar além da passagem do passageiro também mais cinco passagens, uma de cada mala.
Nesse instante a ouvinte Sueli do Bairro Bosque da Água Branca participa pelo telefone.
Ela diz, “eu andei muito de bonde quando era criança, íamos passear de bonde, até o centro, até a Esalq, eu queria perguntar em que velocidade andava o bonde e quando foi desativado?”
O bonde não tinha velocímetro. Calculávamos que a média era de uns 30 km por hora. Ele tinha 9 pontos. Se soltássemos até 9 pontos ele deveria correr até uns 40 km por hora. O bonde foi desativado em Piracicaba em março de 1970.
Quantos quilos pesava um bonde?
Onze mil quilos pesava os bondes de números 2 e 3. Os outros eu não lembro qual era o peso deles.
Quando o bonde saia da linha como era colocado de volta?
Tinha um macaco possante com engrenagens. Tinha que ser erguido com o macaco.
Nos dias de chuva como era a tarefa do cobrador de bonde?
Era difícil. Tinha que tomar chuva, se virava com capa, galocha (galocha é um sapato de borracha que colocava por cima do sapato normal) para não pegar umidade no pé. Naquele tempo as capas eram plásticas, não existia de nylon, elas não agüentavam quase nada.
Quantas pessoas cabiam em um banco de bonde? Quantos bancos tinha o bonde?
Cabiam 5 pessoas. Se fosse uma pessoa avantajada cabia apenas 4. Mesmo que essa pessoa ocupasse dois acentos pagava apenas uma passagem. Se cobrasse duas o cobrador ia para o gancho (suspensão do cobrador). O bonde tinha 11 bancos. O bonde de número 1 tinha menos, se não me engano eram 9 bancos, os outros bondes tinha 2 bancos a mais. O banco logo atrás do motorneiro poderia ser ocupado por quem quisesse sentar nele. Não atrapalhava o motorneiro.
Quantas pessoas cabiam em um bonde?
O normal dele era 80 passageiros. Chegava a levar até 120, 125 passageiros. Esse número de pessoas consta no meu relatório como passageiros que cobrei em uma viagem.
Quando chegava no fim da linha o bonde virava?
Não virava o bonde. Só virávamos o encosto do banco. Piracicaba sempre teve bonde aberto dos lados. Quando tinha muito sol ou chuva era só abaixar a cortina do bonde. Era difícil para a gente cobrar quando abaixava a cortina. Tinha que erguer, cobrar e abaixar de novo a cortina.
Alguma vez alguém falou que não ia pagar a passagem do bonde?
Aconteceu. Na época de carnaval era um tempo difícil de cobrar. Principalmente à noite. A gente conseguia fazer a pessoa pagar. Senão mandava parar o bonde e fazia a pessoa descer.
O ouvinte João do bairro Paulicéia participa do programa pelo telefone e diz:
Na época do bonde eu trabalhava com madeira no Patreze, na Rua José Pinto de Almeida, isso foi no ano de 1964, eu morava na Usina Monte Alegre, nós saiamos às 6 horas do serviço e o último ônibus para o Monte Alegre era as 5:30, depois era só às 9:30 da noite. Eu sempre pegava o bonde ali na Rua José Pinto de Almeida, sempre pegava “no pulo” para não pagar (risos no estúdio), pegava ali na curva que ele andava mais devagar, na Rua Marechal Deodoro, no Potero (fábrica de potes de barro existente na época). Pegava o bonde do lado onde não estava o cobrador, depois passava para o outro lado do bonde. Às vezes colocava o pé e errava a mão e chegava a cair do bonde. Para descer descia pulando também. Eu queria saber o que eram aqueles números que eram marcados no bonde?
Aqueles números eram para o fiscal contar o número de passageiros que estavam no bonde e o que tínhamos recebido de passagens. Caso faltasse algum dinheiro de passagem éramos obrigados a pagar. Tinha uma leitura embaixo do relógio, conforme marcava o número descia a leitura, como um velocímetro de automóvel, mas era para marcar passagens pagas.
Aquela roda que ficava junto ao motorneiro era o que?
Era o freio do bonde. No caso de emergência tinha uma caixa no teto, era só dar uma batida ela desarmava, estralava, virara ao contrário o movimento do bonde, e ele parava a uma distância de 3 a 4 metros do ponto em que foi acionado. Equivale ao “manequinho” de caminhões e ônibus.
O ouvinte Valdir Munhoz liga diz que conheceu o Pacapim e pergunta se o Anésio tinha algum apelido. Ali na da Vila Resende tinha o Grisotto, dali até o fim da linha do bonde eram uns três quarteirões, ali não subia mais ninguém, o cobrador descia para tomar um cafezinho no Grisotto, no Galhardo, então nós íamos virando o banco do bonde, íamos até a administração da linha de trem, na época quem tomava conta era o Lazinho Capelari.
Meu apelido era Boquinha. O Pacapim tinha também o apelido de Fião. Ele tocava a campainha fazendo o som com a boca.
O senhor foi também motorista de táxi?
Fui sim, na praça Takaki. Tive um Mercedinho. Era um automóvel Mercedes- Bens, importado, diesel, 4 marchas, 4 portas, e a porta da frente abria ao contrário, a dobradiça ficava junto a coluna do carro. Esse carro Mercedes era carinhosamente chamado pelo povo de “Biriba”. Quando surgiu a vaga no bonde deixei de trabalhar com táxi. Naquele tempo não tinha taxímetro. Da praça Takaki até o Bairro Alto eram CR$ 30,00. O carro era muito macio. O motor fazia barulho. Na época quase todos os carros táxi de Piracicaba eram Mercedes-Bens a diesel, anos 1950 a 1952.